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Adotar SOA é mais complexo do que parece

Empresas que decidem utilizar arquiteturas orientadas a serviços (SOA) precisam estar preparadas para enfrentar mudanças que vão além da tecnologia e afetam o comportamento de suas equipes de TI.

Computerworld

26/06/2006 às 9h55

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Muitas corporações que estão deixando de lado as tecnologias cliente-servidor para adotar arquiteturas orientadas a serviços (service-oriented architectures ou SOA) têm enfrentado desafios técnicos e culturais que obrigam seus grupos de desenvolvimento de TI a fazer uma revisão geral em seus processos.

Executivos de empresas como Wachovia Corp, Railinc Corp. e muitas outras tiveram que adotar medidas efetivas para superar esses desafios, como, por exemplo, mudar as funções de desenvolvedores e arquitetos ou tornar indistinta a linha que divide os grupos de desenvolvimento de TI e operações.

Em abril, a divisão de banco de varejo da Wachovia começou a trabalhar em um novo projeto SOA plurianual para criar, a partir de web services, processos de negócios que possam ser utilizados em uma nova aplicação de call center e reutilizados nos canais de clientes do banco. O projeto marca a estréia da divisão nas atividades de projetar, montar e gerenciar processos de negócios que envolvam múltiplos canais e, por isso, a área de TI está sentindo na pele a pressão dessa transição.

Além deste, outro projeto anterior de SOA, mais antigo e menos complexo, já gerava desafios aos desenvolvedores da Wachovia, que precisaram deixar de lado a abordagem “cachoeira” tradicional e adotar uma postura mais repetitiva, segundo afirma Harry Karr, arquiteto de TI da empresa. Com a abordagem “cachoeira”, os desenvolvedores criam aplicações monolíticas em uma investida só. “Já na abordagem repetitiva, um grupo desenvolve um serviço, por exemplo, enquanto outro desenvolve um cliente para consumir esse serviço”, explica Karr.

Com o objetivo de facilitar essa transição, a divisão de TI implementou novas ferramentas para estruturar melhor os processos de desenvolvimento e criou novas funções de TI. "SOA é um conjunto de melhores práticas, uma disciplina que você tem que adotar", afirma Jason Bloomberg, analista da consultoria ZapThink LLC. "Para os desenvolvedores, significa que existem novas regras que eles têm que seguir. E eles, na maioria das vezes, não querem seguir nenhuma regra", opina Bloomberg.

Ferramentas para facilitar a mudança

No caso da Wachovia, a ferramenta adotada foi o Information FrameWork da IBM. "Não dominamos realmente o lado do processo de negócio", admite Karr. "Ainda estamos tentando descobrir como implantar uma abordagem mais repetitiva, mas também como terceirizar alguns processos. Ajudaria muito se tivéssemos os processos de negócio modelados antecipadamente", ele revela.

Além de iniciar os projetos SOA, a Wachovia também quer começar a terceirizar uma parcela significativa de sua equipe de desenvolvimento e operações no ano que vem. O banco também recorreu a ferramentas de registro de serviços, repositório e gerenciamento do ciclo de vida da Flashline. De acordo com o arquiteto de TI da companhia, elas deverão auxiliar os desenvolvedores a modelar processos, mostrar dependências e criar relatórios para ajudar a gerenciar e entender o efeito das mudanças.

Dessa forma, o projeto da Wachovia continua a evoluir à medida que os gerentes buscam métodos para facilitar o trabalho. Recentemente, a divisão de TI acrescentou uma camada de conectividade à sua arquitetura. Segundo Karr, a nova camada, um enterprise service bus (ESB) da IBM, lida com orquestração, transformação e roteamento de mensagens.

"Estamos tentando entender que tipo de estrutura precisamos para que nossos terceirizadores consigam operar neste ambiente distribuído", ele disse. "Com o ESB, por exemplo, podemos implementar algumas simulações a partir das quais os nossos parceiros podem testar seus serviços", detalha.

O arquiteto-chefe de arquitetura corporativa de uma grande instituição financeira que preferiu não se identificar conta que os desenvolvedores contratados pouco tempo atrás estão abraçando a mudança da organização para SOA. Especialistas veteranos em mainframe e sistemas legados também apostam na mudança. Apesar disso, o plano de usar tecnologia SOA "não foi fácil para nossos desenvolvedores”, admitiu o arquiteto.

Para facilitar a transição, a instituição financeira criou uma comunidade de base para seus 1.200 desenvolvedores compartilharem melhores práticas e se conectarem aos donos dos web services. Além disso, a organização está ajudando os desenvolvedores de mainframe e sistemas legados a ajustar suas habilidades, ao mesmo tempo em que contrata novos desenvolvedores para o projeto SOA. Nos próximos 18 meses, a instituição planeja criar um SOA com segurança e desempenho suficientes para estender os web services para além do firewall, revela Karr.

De acordo com Bloomberg, da ZapThink, os desenvolvedores frequentemente consideram as mudanças culturais associadas à adoção de SOA mais difíceis do que a própria tecnologia. "A mudança para SOA requer alterações organizacionais em TI e até em ramos de negócio", observa o analista. “Os desenvolvedores têm que trabalhar com pessoas com as quais nunca tinham trabalhado antes", ele observa.

 À medida que assumiu mais projetos SOA, a Railinc, subsidiária da associação americana de ferrovias (Association of American Railroads), criou programas de treinamento para mostrar os benefícios da tecnologia tanto aos desenvolvedores quanto aos destinatários dos serviços. Nos últimos dois anos, a Railinc, que fornece informação sobre supply chain para 460 ferrovias, desenvolveu vários web services externos para seus clientes. Um deles, que entrou em produção em março, possibilita que as ferrovias reportem todos os reparos feitos em seus vagões.

”A iniciativa mais recente inclui diversas equipes de projeto dentro de TI e dos ramos de negócio que estão criando serviços reutilizáveis para o desenvolvimento de aplicações”, disse Garry Grandlienard, diretor de TI da Railinc. O projeto deverá estar concluído no fim do ano.

As sessões de treinamento visam a mostrar aos desenvolvedores e gerentes os benefícios de criar SOA e por que eles devem aderir ao conceito. "Talvez eles precisem ajudar a construir algo hoje, mas pode ser que, ainda este ano, sejam os beneficiários do serviço", observou Grandlienard. "Temos que ajudá-los a ver por que é bom investir nisso”, sugere.

O estado de Kentucky recorreu a desenvolvedores seniores em seus primeiros projetos SOA e já está formando um grupo de governança de integração e um centro de competência para estender o treinamento a uma parcela maior de sua equipe. Dentre as várias aplicações utilizando abordagem baseada em serviços, destaca-se um sistema corporativo que possibilita ao departamento de Receita do estado a otimização da coleta de impostos em atraso, além de um serviço que permite ao departamento de Justiça dos Estados Unidos a consulta ao cadastro de agressores sexuais de Kentucky.

Agora as instalações de TI de Kentucky se preparam para enfrentar um novo desafio envolvendo SOA – identificar as oportunidades de realizar uma reengenharia de processos de negócios e criar uma infra-estrutura de suporte associada, explicou Ashiq Zaman, gerente de sucursal no escritório de desenvolvimento de aplicações do Kentucky.

No começo do ano, o distrito de Columbia, por sua vez, inaugurou um sistema baseado em SOA chamado CapStat, que utiliza web services para ajudar centros de comando de emergência em Washington e arredores a coordenar respostas em caso de desastre natural ou ataques terroristas.

O distrito também implantou o programa DCStat, que emprega web services para monitorar o fornecimento de serviços municipais. Apesar destes esforços, Dan Thomas, diretor do programa DCStat do distrito, observou que os desenvolvedores da cidade ainda “não são os maiores defensores" de SOA. "Alguns dos meus desenvolvedores acham que só estou acrescentando despesas. Eles ainda não conseguem ver o valor da reusabilidade”, revela.

Para reduzir este ceticismo, o grupo de Thomas desenvolveu um mecanismo de metadados que ajuda a rastrear serviços à medida que eles são combinados para criar novas aplicações. O mecanismo associa metadados com dados a serem usados em um serviço à medida que eles são extraídos de um sistema-fonte.
 
Recompensa final

Apesar dos desafios técnicos e culturais de SOA, o retorno pode ser substancial, atestam usuários bem-sucedidos. A empresa suíça de seguros Helvetia Patria Group, usuária veterana de SOA, obteve 201% de retorno do investimento desde que implantou SOA há seis anos. Representantes da Helvetia disseram que o projeto reduziu em 59% os custos de TI das unidades baseadas em internet.

A Helvetia superou o "exercício árduo" de obter a adesão dos desenvolvedores ao utilizar um programa de gerenciamento de mudança da Hewlett-Packard, revelou Didier Beck, diretor do eBusiness Center da Helvetia. As ferramentas e os serviços da HP ajudaram os desenvolvedores a integrar 15 sistemas em uma plataforma SOA centralizada. "Nosso modo de trabalhar hoje é realmente muito diferente porque, antes, não havia qualquer contato entre as diversas subsidiárias – elas tinham seus próprios processos e suas próprias ferramentas de desenvolvimento", explica Beck. "As conseqüências e o impacto foram extraordinariamente grandes”, diz.

Os novos processos de desenvolvimento da Helvetia incluíram a centralização do gerenciamento de mudança e o uso de cronogramas de liberação de software. Além disso, a empresa agora proporciona a todos os novos desenvolvedores de seis a 12 meses de treinamento em seu eBusiness Center, onde gerencia centralmente o SOA. "Uma implementação SOA é uma jornada", define Beck, "e você tem que investir muito para atingir um novo nível de agilidade", conclui.

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