Elas querem ter dados analíticos para tomar decisão de negócios, mas esbarram na falta de estratégia

16 de Julho de 2014 - 08h11

O tema BI/Analytics aparece como prioridade número 1 na agenda de 2014 de CIOs brasileiros, passando na frente até mesmo de assuntos como mobilidade e Cloud Computing, segundo estudos do Gartner. A posição de destaque sinaliza o interesse das companhias em investir em estratégias de Big Data para ter informações preciosas, que ajudem a incrementar negócios. Ao mesmo tempo, o relatório revela que esses projetos são um sonho e que o processo de adoção no mercado local anda lentamente.

A maturidade de Big Data ainda é baixa no País. As iniciativas esbarram na dificuldade dos executivos de medirem o real valor que os projetos trazem para os negócios, na falta de estratégia e talentos especializados. Esses três itens são os maiores desafios das empresas para as implementações, revela estudos apresentados durante a Conferência Business Intelligence e Gestão da Informação 2014, realizada em maio pelo Gartner, em São Paulo.

O tema Big Data é bastante nebuloso não apenas no Brasil, informa Ian Bertram, vice-presidente de pesquisas do Gartner. Ele constata que o assunto gera entusiasmo. Os olhos de muitos executivos brilham, principalmente de negócios, quando eles ouvem falar sobre a possibilidade de dar inteligência aos dados. Porém, os projetos são carregados de emoções. Eles geram conflito, excitação e medo, fazendo com que as adoções sejam mais lentas.

“A estratégia para Big Data ainda está muito ausente nas empresas porque elas não sabem onde aplicar o Big Data”, acredita Rom Linhares, que lidera esse assunto na HP Brasil. As organizações têm interesse pelo tema, mas falta definir o mapa de desejo para análise de dados, segundo o executivo. Sua recomendação é que as companhias gastem tempo, reunindo os times de TI e negócios para traçarem de oito a seis projetos para teste da prova de valor.

Ricardo Chisman, que lidera a Accenture Digital, na consultoria Accenture Brasil, observa que Big Data tem sido muito demandado pelas áreas de negócios, que precisam criar uma simbiose com a TI. Ele acredita que juntos os dois times conseguirão decidir como a organização pode se beneficiar do uso de dados analíticos.

Na visão do executivo, Big Data tem que fazer parte da agenda digital da empresa e integrar-se à estratégia de negócios, envolvendo atendimento ao cliente, fornecedores e outras áreas. Caso contrário, Big Data corre o risco de ser mais uma solução. Chisman prevê que esse tema será mais discutido no País em 2014, quando deverá ganhar mais maturidade, já que se trata de um caminho sem volta.

Pesquisas globais do Gartner, realizadas em 2012, revelam que 58% das organizações entrevistas disseram que investiram em algum tipo de solução para análise de dados. Em 2013, esse número subiu para 64%, ou seja, 2/3 das companhias abordadas compraram alguma ferramenta para tratar dados.

Entre as razões para adoção de Big Data, 55% apontaram o interesse em melhorar a experiência com o usuário; 49% mencionaram a busca por ganhos de eficiência em seus processos; e 42% destacaram a necessidade de desenvolver produtos inovadores e criar novos modelos de negócios.

Desafios a serem vencidos
Ao serem questionados sobre os desafios para implementação de Big Data, 56% dos entrevistados pelo Gartner revelaram não saber como determinar o valor dessa iniciativa para os negócios. Outros 41% admitiram falta de uma estratégia bem definida para esse tipo de projeto e outros 34% apontam a escassez de talentos especializados como uma das principais barreiras.

Na avaliação dos analistas do Gartner, a sopa de letras envolvendo Big Data (BI, Business Analytics, Data Discovery, Smart Machine, etc) gerou um pouco de confusão no mercado. João Tapadinhas, diretor de pesquisas da consultoria, considera que a indústria tem um pouco de culpa, mas acha que esse processo é natural por se tratar de um movimento novo. 

Ele avalia que o Brasil está andando mais lento nessa estrada, mas afirma que as iniciativas estão começando a surgir. São os setores financeiro e de telecom, que vêm se destacando mais no terreno de dados analíticos pela natureza dos seus negócios, que geram grande volumes de informações.

O tema não é mais um hype, mas uma tendência avisa Donald Feinberg, analista distinto e vice-presidente do Gartner, que sempre afirmou que Big Data não existe. Sua previsão é de que esse termo desaparecerá em aproximadamente dois anos, dando lugar para soluções de Business Analytics.

Feinberg estima que em cinco anos haverá uma maior diversidade de soluções de gestão de informações para análises de dados para tratamento em tempo real. Os bancos de dados com processamento em memória devem sofrer queda de preços e aumentar a competitividade no mercado. Haverá outras opções para concorrer com Hana da SAP.

O analista do Gartner assinala que um dos fatores que deverão contribuir para uma adesão maior das tecnologias de análise de dados no País é a chegada de novos players, como fornecedores Hadoop, plataforma de código aberto, criada para analisar grandes volumes de dados estruturados e não estruturados. Até o final de 2014, essas empresas devem começar a desembarcar no Brasil.

Busca por especialistas
O analista do Gartner menciona também o aumento do esforço das companhias para formação de cientistas de dados ou profissionais com habilidade para lidar com grandes volumes de dados. Ele confirma que esse problema não é só do Brasil. Outros mercados estão buscando alternativas para formar mão de obra especializada.

A saída que Bertram sugere para eliminar essa barreira é que as empresas tentem capacitar profissionais de sua equipe que tenham visão de negócios. Esses especialistas podem ser lapidados para lidar com Big Data. Ele cita exemplo de companhias que buscaram esse tipo de mão de obra no mercado, mas que não acertaram porque trouxeram executivos com boa formação acadêmica, mas que não tinham conhecimento da operação.

Começam a surgir algumas iniciativas no Brasil para preencher essa lacuna. A Ícaro Technologies, por exemplo, investiu em um Centro de Excelência (ACE) em Analytics, localizado em Campinas, interior de São Paulo, para estudar e desenvolver novas soluções que auxiliem as empresas na análise de Big Data.

Kleber Stroeh, diretor executivo da Ícaro Technologies, explica que a proposta do ACE é ajudar clientes a aumentar a maturidade sobre Big Data e apoiá-los em projetos, principalmente operadoras de telecom e setor de energia. O local vai operar com uma equipe multidisciplinar para permitir que as companhias possam desenvolver seus projetos e também estimular a formação de mão de obra especializada. A Ícaro negocia parceria com a Universidade de Campinas (Unicamp) para estimular pesquisa e capacitação de jovens em Big Data.

As companhias têm a opção também de alocar um time on demand de cientistas de dados e pagar por hora, como no modelo de consultoria. A HP é uma das empresas que estão prestando esse serviço. No mundo, a companhia conta com 1,2 mil especialistas em Big Data, sendo que 40 atuam no Brasil.

Rom Linhares, practise principal da HP, informa que o modelo de alocação de talentos em Big Data tem sido requisitado por organizações que querem fazer provas de conceito, sem correr o risco de contratação de um cientista de dados. Depois, um grupo pode treinar o time interno para dar continuidade ao projeto.

Segurança na era do Big Data
Uma das áreas em que Big Data deverá se destacar é nos projetos de segurança. Estudos do Gartner estimam que em 2016 cerca de 25% das grandes organizações ao redor do mundo terão adotado soluções analíticas para detecção de fraude. Atualmente, esse índice é de 8%. O retorno do investimento, segundo a consultoria, deverá vir em até seis meses após a implantação.

João Tapadinhas, diretor de pesquisas do Gartner, avalia que as empresas podem obter economias significativas em tempo e dinheiro ao usarem sistemas de análise de dados para evitar crimes e infrações de segurança ao prevenirem perdas e aumentarem sua produtividade.

“Os analíticos de Big Data oferecem às empresas um acesso mais rápido a suas próprias informações. Permitem às empresas combinarem e correlacionarem informações externas e internas para visualizarem um cenário mais amplo de ameaças contra as organizações. Isto se aplica em muitos casos de uso de segurança e fraude, tais como, detecção de ameaças avançadas, ameaças internas e controle de contas”, afirma Tapadinhas.

As informações necessárias para descobrir os eventos de segurança perdem valor ao longo do tempo. A análise de dados inteligente, feita a tempo, é essencial, na medida em que os criminosos e malfeitores são mais rápidos ao cometerem os crimes. No passado, as empresas confiavam em diversos sistemas de monitoramento e detecção em silos. Agora, elas podem utilizar os analíticos de Big Data.