Telefones estão prestes a se transformarem completamente. Prepare-se para a interface distribuída e invisível do usuário

04 de Julho de 2016 - 14h08

Se os rumores se provarem reais, o próximo iPhone não contará com uma entrada para fones de ouvido. Alguns apoiam a possível mudança, dizendo que o sistema de áudio 3.5 mm é uma tecnologia da era vitoriana, uma versão da invenção de 1878 usada por operadores de telefone. Ao remover o plug de entrada, isso tornaria iPhones menores, simples e mais à prova d'água.

Mas outros dizem que a remoção dele prejudicaria usuários, tornando décadas de fones de ouvidos e outros dispositivos inúteis sem a compra de conversores. E mais, mudar fones de ouvido do analógico para o digital poderia levar a um controle mais rigoroso sobre direitos digitais e teoricamente dar maior poder a Apple para bloquear fones de ouvido não oficiais.

Sem a entrada para o acessório, os smartphones provavelmente usariam fones alimentados com Bluetooth ou os aparelhos da Apple viriam com fones que usam entrada Lightning. Ou talvez, ambos.

A Apple não seria a primeira a adotar a mudança. O último anúncio da Motorola, o Moto Z, não conta com um plug para fone de ouvido. Algumas pequenas empresas chinesas também estão se livrando dele. Mas quando a Apple assumir a mudança, é provável que o restante da indústria siga o mesmo caminho.

Mas enquanto nós brigamos sobre plugs de áudio em smartphones, algo realmente importante está acontecendo: nossas interfaces de usuário estão se tornando mais distribuídas e invisíveis. E essas tendências podem tornar o smartphone obsoleto. Veja o que tem acontecido com os próprios fones de ouvido.

A revolução dos fones

Uma companhia chamada Doppler Labs anunciou na semana passada um novo produto chamado Here One, que chamou de a “primeira plataforma computacional para fones de ouvidos do mundo”, tecnicamente mais próximo ao iPhone do que aos fones de ouvido da marca.

Como nossos fones de ouvido já existentes, o Here One roda música e podcasts do seu smartphone e permitem que você faça e receba chamadas. 

Mas diferente dos tradicionais, os da Doppler Labs contém uma tecnologia especial de processamento de áudio que formam processadores com vários núcleos e vários microfones. Eles são controlados com um aplicativo. 

Enquanto seus atuais fones de ouvido não são muito mais sofisticados do que dois pequenos alto falantes conectados por um fio, o Here One é mais poderoso que o seu PC de alguns anos atrás. 

Você pode usar o aplicativo para personalizar o que você escuta. Você pode desligar o som de um bebê chorando – você ouvirá tudo ao redor, exceto o bebê. Se você estiver em um restaurante barulhento enquanto tenta manter uma conversa, você poderá desligar este barulho do plano de fundo. Você pode ouvir música em um festival enquanto bloqueia todos os sons ao redor. Soa incrível, certo?

Esses “truques” avançados de áudio exigem processamento de alta performance, que acontecem nos próprios fones de ouvido. Por exemplo, qualquer som no ambiente pode ser “gravado”, processado e depois reproduzido com ou sem modificação, e isso precisa acontecer tão rapidamente para que você não perceba o delay.

A Doppler reivindica que sua tecnologia adaptativa de filtro não apenas remove cegamente frequências específicas, mas ao invés disso escuta a sons do ambiente, identifica o barulho que o usuário não gosta e depois o filtra baseado no que você está ouvindo. Uma implicação disso é que se, digamos, um bebê está chorando a sua esquerda e você escolher filtrar este choro, o filtro será diferente ao fone da esquerda do que o da direita para otimizar o cancelamento do barulho. 

Os fones de ouvido da Doppler Labs começam a ser entregues no final de novembro e podem ser encomendados por US$ 299.

Além do Here One, você pode considerar o fone de ouvido da Bragi Dash. Os fones são sem fio e sincronizam um com o outro usando tecnologia de indução Near Field Madgnetic. 

Os fones de ouvido da Bragi Dash têm potencial. Cada um deles conta com 23 sensores que, eventualmente, poderão rastrear o seu batimento cardíaco, fatores do ambiente e mais. Eles contam com diferentes controles à esquerda e direita, onde você consegue controlar música e volume e também selecionar opções fitness, como começar e parar o recurso de rastreamento para sua corrida. A medida que você seleciona as opções, uma voz em seus fones de ouvido lê as possibilidades e fornece um feedback também falado.

Há inteligências nesses fones de ouvido também. Por exemplo, você não os liga. Ao colocá-los simplesmente em seu ouvido, o dispositivo inicia e conecta com seu aparelho. Os fones de ouvido reconhecem o  movimento de encaixá-los e eles, então, se ligarão sozinhos. 

Assim como o Here One, o modelo da Bragi Dash permite que você controle separadamente o volume da música e o barulho ambiente. Ao desligar a música e elevar o som ambiente – modo chamado Transparency – você ganhará uma espécie de super audição. 

O Here One e o Bragi Dash representam o futuro dos fones de ouvido – carregados com inteligência e poder de processamento e a habilidade para personalizar o que você escuta e o que você não escuta.

Mas aí você se pergunta, o que isso tem a ver com o futuro dos smartphones?

Para onde caminhamos: a interface distribuída do smartphone

Por mais incrível que essa próxima geração de fones de ouvido possa ser, críticos se queixam dela. Entre as queixas que ouvimos estão que os fones são muito caros, dispositivos sem fio são uma batalha para carregá-los e que fones Bluetooth são menos confiáveis que as versões com fio. 

Toda essa discussão me lembra a chuva de críticas que smartwatches e outros wearables receberam. Muitos diziam: eles não são úteis, necessários. 

Mas a mudança já está acontecendo. Passo a passo, nossa interface de usuário para smartphone será substituída por dispositivos vestíveis. Por exemplo, fones como o Here One são tão bons para uso constante que você sempre se verá os usando – claro, que quando futuras versões do produto conseguirem ter bateria para durarem um dia. E bem, se você sempre estiver com seus fones de ouvido, os alto falantes do seu aparelho não serão necessários, certo?

Com o crescimento de assistentes virtuais e bots, nós cada vez mais estamos falando com nossos smartphones através de wearables ao invés de tocar nossas telas. Notificações e atualizações serão faladas para nós através de nossos fones de ouvido. Os eletrônicos usados atualmente nos óculos inteligentes sumirão dentro dos óculos tradicionais e óculos de sol, e nós os usaremos para tirar fotos e gravar vídeos e, com um simples piscar de olhos, poderemos mudar a visualização para imagens de realidade virtual e realidade aumentada.

Os fones de ouvido da Doppler Labs são um ótimo exemplo do futuro de todos os wearables: eles são tão bons que tornarão um componente no smartphone obsoleto.

No futuro, também optaremos por smartphones cada vez menores. E um dia, todos os eletrônicos que equipam o seu smartphone caberão dentro de um smartwatch, o que acabará tirando a necessidade de um smartphone. 

Essa visão de usar diversos wearables como a principal e, talvez, única interface para nossos smartphones – e eventualmente uma alternativa para os próprios – fará com que nós tenhamos a sensação de que nós, humanos, somos o próprio computador. Isso pode não soar muito atraente hoje, mas nós ficaremos animados com a experiência.  

No final das contas, o plug para os fones de ouvido da Apple não é tão importante. O mundo do áudio para smartphones é sobre uma mudança radical de como usamos nossos telefones.