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Senador republicano contraria Trump e defende programa de vistos H-1B

Senador Orrin Hatch alega existir escassez de trabalhadores altamente qualificados nos EUA e trabalha para que a nova lei de vistos para trabalho temporário seja ampliada

20 de Fevereiro de 2017 - 08h30

Duramente condenado pelos críticos do programa anual de vistos H-1B do governo americano, que fornece vistos de trabalho temporário para funcionários altamente qualificados, o senador republicano Orrin Hatch, presidente do Comitê de Finanças do Senado dos Estados Unidos, anunciou que irá promover algumas reformas na "I-Squared Act de 2015" — também conhecida como "Immigration Innovation Act de 2015") para tentar apaziguar os ânimos.

Hatch foi um dos que lideraram a criação da I-Squared Act em 2015, que continha uma uma variedade de propostas destinadas a melhorar o sistema de imigração do país. Nem todas as disposições se referiam aos trabalhadores H-1B. "A criação dessa lei foi horrível", disse na semana passada o Instituto dos Engenheiros Elétricos e Eletrônicos (IEEE) dos EUA, o que, segundo a entidade, "ajudou destruir" a força de trabalho de tecnologia dos EUA.

O senador lidera a "força tarefa high-tech" dos republicanos, lançada na quinta-feira passada, 16, com o nome de "Agenda de Inovação". Ao apresentá-la, Hatch, porém, permaneceu inflexível quanto a afirmação de que os Estados Unidos sofrem escassez de profissionais nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (conhecidos como STEM workers) e precisa de trabalhadores estrangeiros altamente qualificados. Mas ele também reconhece que alguns empregadores abusam o visto H-1B.

"Precisamos garantir que este sistema não seja manipulado e sirva para achatar os salários domésticos ou deslocar trabalhadores americanos," disse Hatch, em um comunicado. "Infelizmente, alguns maus atores têm criado uma grande agitação sobre os vistos H-1B, justamente por abusar do sistema de emprego offshore para trabalhadores estrangeiros. Todos vimos as notícias."

Hatch talvez se refira ao deslocamento de trabalhadores da Disney, Southern California Edison, New York Life, Cengage Learning, SunTrust Banks, Hertz, MassMutual, Health Care Service Corporation, Emblem Health, a Universidade da Califórnia em San Francisco e outras organizações.

O IEEE-EUA, que reúne aproximadamente 200 mil profissionais de engenharia, computação e tecnologia, disse ver com bons olhos a nova postura do senador. "O IEEE aplaude o reconhecimento de Hatch de que o programa H-1B é dominado por prestadores de serviços", disse Russell Harrison, diretor de assuntos governamentais do órgão.

Harrison, no entanto, ligou para Hatch cobrando ações urgentes para que o presidente Donald Trump altere a loteria de vistos — o sorteio aleatório dos profissionais para obtenção do visto. Os EUA realizará a loteria anual de vistos H-1B em 1º de abril. O IEEE-EUA está pedindo que Trump altere o modelo de funcionamento da loteria.

As regras do H-1B reconhecem, de maneira geral, dois tipos de empresas — as empresas dependentes de H-1B, que têm 15% ou mais trabalhadores com o visto, e as empresas não dependentes, com menos do que essa porcentagem. As empresas dependentes de H-1B são principalmente empresas offshore de outsourcing de TI.

O IEEE-EUA quer que na loteria seja dada prioridade a empresas não dependentes do visto H-1B, deixando as empresas dependentes no fim da fila.

"Temos que percorrer um longo caminho para resolver dois dos problemas identificados por Hatch — libertar até 50 mil vistos H-1B para os empregadores de profissionais qualificados, mas isso vai alijar boa parte dos terceirizados do processo de seleção, cujo modelo de negócio é tirar empregos de americanos," disse Harrison.

A administração Trump pode mudar o sistema de loteria por meio de um regulamento provisório, mas tem que fazer a mudança até o deste mês, já que qualquer regulamento precisa aguardar 30 dias para que possa entrar em vigor em 1º de abril.

O teto de vistos H-1B está fixado em 85 mil profissionais, dos quais 20 mil vagas são para graduados com especialização em escolas dos EUA. As empresas offshore com sede nos EUA e na Índia ficaram com metade dos 65 mil vistos H-1B reservados com base no teto.

Entre as propostas de Hatch está a de que os vistos possam ser solicitados qualquer empregador único que ateste que primeiro tentou contratar um trabalhador americano. Ele também propôs algo chamado de "disparo do relógio" em que um visto será revogado se não for usado dentro de um determinado período de tempo.

A última vez que Hatch apresentou o projeto I-Squared Act, em 2015, ele propôs que o teto do H-1B subisse de 65 mil para 115 mil, e pudesse chegar a 195 mil, dependendo da demanda.