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Quatro mitos sobre a nuvem pública

A cloud pública coloca um novo paradigma em infraestrutura no qual é cada vez mais difícil justificar a compra e manutenção de equipamentos próprios

04 de Julho de 2017 - 12h14

Se perguntarmos para duas pessoas que veem juntas uma mesma nuvem no céu qual forma a nuvem tem, provavelmente receberemos duas respostas bem diferentes. O mesmo acontece quando perguntamos a dois CIOs qual a percepção que eles têm sobre a cloud pública. Entre unicórnios e monstros, são poucos os que sabem distinguir entre as tempestuosas cumulonimbus e as altas e leves stratocumulus.

Neste ambiente que evolui rápido, buscando identidade, se desenvolveram diversos mitos sobre a nuvem pública. Alimentados geralmente por desinformação e também por interesse daqueles que se sentem ameaçados pela mudança de paradigma. Creio que vale a pena trazer a percepção de empresas que já migraram para a cloud e podem agora testemunhar sobre o que representa ter a maior parte dos seus sistemas nesse ambiente invisível.

O primeiro desses mitos diz respeito ao desempenho da cloud. A queixa é de que muitas vezes a nuvem não atende às expectativas dos usuários e deixa muito a desejar em termos de disponibilidade. O fato é que a maior parte dessas reclamações vem de empresas que colocaram seus sistemas em data centers menores com diversas restrições tecnológicas e que geralmente oferecem soluções de hosting onde o hardware é propriedade do cliente. Essa não á a realidade da cloud pública. Na cloud dos grandes provedores como a AWS, Microsoft e Google, a quantidade de recursos é virtualmente ilimitada para a maioria dos clientes e a qualidade do serviço é totalmente dependente dos recursos e ajustes que você escolhe para o seu ambiente.

O céu é o limite em termos de desempenho. Se algo não está funcionando a contento, é apenas uma questão de modificar os parâmetros dos recursos para obter mais banda de tráfego, CPU, memória e armazenamento. Além disso, diversas ferramentas permitem trabalhar a arquitetura de soluções a fim de torná-las mais facilmente escaláveis e assim desfrutar de um melhor desempenho de forma otimizada e barata.

O segundo mito é sobre a segurança. Existe uma percepção de que levar os dados e sistemas para a cloud possa aumentar a exposição e vulnerabilidade a ameaças de segurança. Aqui mais uma vez somos vítimas de implementações precárias de soluções de hosting que se dizem cloud, mas não oferecem as características básicas de segurança disponíveis nas grandes clouds públicas. Também contribui para essa percepção o desconhecimento dos mecanismos de segurança que estão nativamente disponíveis para todos os ambientes. Entre eles, encontramos soluções completas de isolamento de sistemas, criptografia, prevenção e mitigação de ataques, monitoramento e auditoria, além de um sistema extremamente sofisticado e granular de controle de acesso e identificação a todos os recursos da cloud.

É extremamente difícil encontrar empresas que tenham esse conjunto de ferramentas permanentemente atualizado com SOC (centro de operações de segurança) automatizado e critérios tão rígidos de acesso físico aos equipamentos como é o caso dos grandes provedores de Cloud Pública. Dessa forma, passa a ser uma questão de educação e conhecimento para compreender que, na maioria dos casos, a migração para cloud representa uma melhoria na segurança geral das soluções.

O terceiro mito é sobre os custos da cloud. Esse tema pode se tornar bastante complexo pois existem diversos modelos de compra dos mesmos recursos. Entretanto o mito de que a cloud pública é mais cara vem de comparações pobres com soluções puras de hosting onde os recursos são estaticamente alocados (comprados) com margens de crescimento já incluídas.

A questão fundamental é que na cloud pública podemos requisitar expansões de forma imediata e por isso não faz sentido pré alocar recursos que não estão sendo utilizados. Como pagamos por horas de utilização, qualquer hora de um servidor desligado já representa uma economia. O objetivo é fazer com que os workloads operem de forma muito mais justa em relação ao consumo (rightsizing) e utilizem a capacidade de escalar horizontalmente por meio da adição de mais servidores na forma de clusters de máquinas. Assim, podemos criar e terminar servidores ao longo do dia, ajustando sua capacidade de serviço ao que realmente é utilizado. Talvez o exemplo mais simples seja apenas programar a inicialização e o desligamento de servidores que operam apenas durante o horário comercial. Ou seja, através de monitoramento, automação e uso das ferramentas que permitem o uso dinâmico dos recursos conseguimos provar a economia da cloud.

O último mito é relativo à construção de clouds híbridas (público/privadas) como estratégia para lidar com a incapacidade da nuvem pública em acomodar certas aplicações. É claro que sempre existirão aplicações muito específicas e extremamente difíceis de mover para a cloud, mas essas aplicações são muito mais raras do que as que vejo utilizadas como justificativa para manter clouds privadas. Para ilustrar, podemos citar as soluções que permitem levar os ERPs para a cloud de maneira segura e eficiente. Essas são aplicações vitais para as empresas, muitas vezes escritas em tecnologias legadas e interconectadas com diversos outros serviços, mas que têm sido completamente movidas para a cloud com muito sucesso.

Para a grande maioria das empresas, a infraestrutura local ficará restrita aos computadores dos usuários e o acesso à internet que os interconecta à cloud. A parte privada da cloud híbrida aparece apenas como uma solução temporária para acomodar uma incapacidade de levar tudo para a cloud de uma vez só.

É claro que não existe uma única forma de ver a cloud pública. Dependendo da realidade e das necessidades de cada empresa, as soluções podem mudar, entretanto os ganhos de escala, sofisticação e conveniência da nuvem pública colocam um novo paradigma em infraestrutura no qual é cada vez mais difícil justificar a compra e manutenção de equipamentos próprios. Precisamos nos acostumar que a cloud pública é algo muito mais concreto, completo e sofisticado do que as soluções de infraestrutura que a antecederam e com isso imagino que aquela nuvem com cara de mostro mitológico se transformará em apenas um belo grupo de gotículas de água que flutua no céu em forma de algodão.

*Caio Klein é sócio e diretor de operações (COO) da Sky.One.