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A Quarta Revolução Industrial chegou, e você não passará imune a ela

As máquinas são nossas ferramentas, mas pode chegar o momento em que não seremos mais capazes de controlá-las

26 de Janeiro de 2016 - 11h49

Agora, em janeiro de 2016, durante o Fórum Mundial de Davos, seu chairman Klaus Schwab disse que uma mudança estrutural está em andamento na economia mundial, no que seria o início da Quarta Revolução Industrial. Segundo ele, esta revolução aprofundaria elementos da Terceira Revolução, a da computação e faria uma “fusão de tecnologias, borrando as linhas divisórias entre as esferas físicas, digitais e biológicas”.

Na opinião de Schwab, esta nova revolução, unindo mudanças socioeconômicas e demográficas, terá impactos nos modelos e formas de fazer negócios e no mercado de trabalho. Afetará exponencialmente todos os setores da economia e todas as regiões do mundo. Mas não do mesmo modo. Haverá ganhadores e perdedores. “As mudanças são tão profundas que, da perspectiva da história humana, nunca houve um tempo de maior promessa ou potencial perigo”. O mercado de trabalho será afetado dramaticamente, inclusive com trabalhos intelectuais mais repetitivos substituídos pela robotização. As mudanças são reais. Já estão aí.

Os impactos no mercado de trabalho já vem sendo debatido, com algumas previsões apocalípticas estimando que em 10 a 15 anos cerca de metade das vagas de funções como operadores de telemarketing, corretores, carteiros, jornalistas, desenvolvedores de software e outras terão desaparecido, pelo uso de softwares e robótica encharcados de algoritmos inteligentes. As vendas de robôs, segundo a International Federation of Robotics tem crescido continuamente. Em 2015 foram vendidos, no mundo todo, 255 mil, e estima-se que em 2018 serão 400 mil.

Mas a grande ameaça aos empregos não está mais na indústria. Os software inteligentes estão chegando ao setor de serviços. Hoje são capazes de dirigir veículos, atender clientes em serviços de telemarketing, preencher formulários de Imposto de renda, etc. Por exemplo, alguns bancos como o DBS, de Singapura, o Royal Bank of Canada e aqui no Brasil, o Bradesco, começam a experimentar o Watson da IBM nesta função de atendimento aos clientes. Nos EUA, os gastos com call center somam 112 bilhões de dólares e estima-se que cerca de 270 bilhões de chamadas de clientes não sejam atendidas adequadamente. Uma das causas principais são os problemas de acesso às informações e o cruzamento de inúmeros dados em tempo real, tarefa impossível para um ser humano apoiado por sistemas tradicionais, que disponibilizam scripts pré-programados. A ideia é colocar sistemas como o Watson, capazes de cruzar milhões de informações diferentes, como catálogos de produtos, manuais de treinamento, termos e condições contratuais, e-mails e chamadas anteriores dos clientes com problema similares, fóruns de debate sobe o tema, histórico de atendimento do call center, etc, para eliminar ou diminuir sensivelmente a taxa de solicitações não atendidas.

Ainda são os primeiros passos, mas com a evolução exponencial da tecnologia, estes passos se acelerarão muito rapidamente. Embora o discurso dos fornecedores de tecnologia e das empresas envolvidas seja sempre o de que o produto vai aprimorar o trabalho das pessoas e não substituí-las, é inevitável que a cada habilidade aprendida pelos computadores, milhões de empregos tenderão a desaparecer. A tecnologia, ao longo do tempo, vai reduzir a demanda pelos postos de trabalho que demandam menos habilidades, como exatamente são os operadores de telemarketing. Foi assim nas linhas de produção robotizadas, nas funções de datilografia, nos ascensoristas e hoje, na redução significativa das vagas de secretariado.

Mas não é só. Na Suíça, drones estão sendo testados para entregar documentos em vilarejos distantes, substituindo os carteiros humanos nestas atividades. A Amazon também está experimentando drones para entregas rápidas nos EUA. Um artigo na Fortune “5 white-collar jobs robots already have taken” aponta algumas outras experiências. O editor da Robot Report diz que empresas como FedEx estudam a possibilidade de, no futuro, dispor de um centro de pilotagem com poucos pilotos voando a sua imensa frota de aviões cargueiros. Estes aviões operarão como drones, uma vez que não deverão levar passageiros. Cita também o CEO da empresa de tecnologia russa Mail.Ru explicando que que está investindo em uma startup que usará robôs para ensino de matemática nas escolas.

O risco potencial é bem real. Recomendo a leitura de um paper muito instigante, “The Future of Employment: How susceptible are Jobs to Computerisation, que aborda o tema “desemprego tecnológico”, com foco nos EUA. À medida que os avanços nas tecnologias de Machine Learning e robótica avançarem, será inevitável a substituição de funções ocupadas por humanos hoje. Ocupações que envolvam tarefas e procedimento bem definidos poderão ser substituídas por algoritmos sofisticados. Como o custo da computação cai consistentemente ano a ano, torna-se atrativo economicamente a substituição de pessoas por máquinas. O processo é acelerado pela reindustrialização nos países ricos, como os EUA, que após perderem suas fábricas para países de mão de obra barata como a China, começam a trazê-las de volta, mas de forma totalmente automatizadas. Os empregos da indústria americana, perdidos pela saída das fábricas, não estão voltando com elas. Quem está ocupando as funções são os robôs. Este processo também está ocorrendo na China e já existem diversas fábricas totalmente automatizadas e cada uma delas emprega pelo menos dez vezes menos pessoas que as fábricas tradicionais.

O paper estima que cerca de 47% dos empregos atuais, nos EUA, estão em risco. Entre estas funções estão motoristas de veículos como caminhões e táxis, estagiários de advocacia, jornalistas, desenvolvedores de software, administradores de sistemas de computação, etc. Esta é uma diferença significativa que a chamada Quarta Revolução Industrial está provocando. Os “colarinhos azuis” ou operários já estão diminuindo sensivelmente, mas os “colarinhos brancos”, empregos nas tarefas administrativas, também estão correndo o risco. Alguns artigos mostram que os sistemas cognitivos baseados em algoritmos inteligentes podem atuar em conjunto (as vezes substituindo) em várias ocupações antes exclusivas das pessoas. Na medicina, por exemplo, vale a pena ler o artigo “The Robot Will See You Now, que embora de 2013, discute ao assunto com clareza.

Tem também artigos bem polêmicos como “Do We Need Doctors or Algorithms?”, em que Vinod Khosla, co-fundador da Sun Microsystems e hoje investidor em startups de tecnologia, afirma que no futuro os sistemas inteligentes e robôs substituirão 80% dos médicos americanos. Claro, gerou e ainda gera uma tremenda polêmica!

Os advogados não ficam de fora. O artigo publicado no New York Times, “Armies of Expensive Lawyers, Replaced by Cheaper Software" estima que serão necessários bem menos advogados, pois muitas de suas funções, que são fazer buscas em documentos ou analisar casos similares poderão ser feitas por algoritmos. No jornalismo temos alguns exemplos de reportagens financeiras sendo feitas automaticamente por robôs, como descrito no artigo “AP´s “robot journalists” are writing their own stories now".

E em TI? Muitas funções feitas por desenvolvedores de código poderão ser automatizadas. Algumas experiências já têm sido feitas, como o conceito de Programming by Optimisation e de depuração automática de código.

A Quarta Revolução Industrial afetará de forma dramática o mercado de trabalho. Os primeiros estudos de seu impacto mostram que a classe média será a principal prejudicada, pois ocupam trabalhos em escritórios e são autores de trabalhos intelectuais, como advogados e desenvolvedores de software, que tenderão a desaparecer ou demandarão muito menos vagas que hoje. Claro, novos empregos serão criados, mas exigirão conhecimentos muito especializados e altos níveis de educação. Novas carreiras e funções, que ainda não conhecemos, serão criadas, mas a dúvida é se serão em número suficiente para recompor as vagas que desaparecerão.

Aqui no Brasil este fenômeno acontecerá mais lentamente, primeiro porque o nível de automatização de nossa indústria é baixo (temos 10 mil robôs enquanto a Coréia do Sul compra 30 mil novos robôs por ano e a China 20 mil) e temos abundância de mão de obra não qualificada, que ao lado de um empresariado conservador, que não investe intensamente em inovação tecnológica, vai segurar o “tranco” por algum tempo.

Mas é inevitável que a Quarta Revolução Industrial chegue aqui também. Vai demandar um novo currículo educacional, que abandone a memorização de fatos e fórmulas para focar mais em criatividade e comunicação, coisas que as universidades brasileiras, em sua grande maioria, não estimulam.

Recomendo a leitura do livro “The Future of the Professions” que aborda discussões muito interessantes sobre o tema. Para os autores, profissionais como advogados, médicos e contadores acreditam na excepcionalidade humana. Muitos até admitem que seu conhecimento especifico, adquirido a duras penas, será igualado, em um futuro próximo, pelas máquinas. A verdade é que a maioria dos trabalhos profissionais pode ser desdobrada em conjuntos de tarefas distintas. Depois que são desmembrados, resta pouco o que não possa ser feito pelas máquinas.

Enfim, é uma discussão que está apenas começando. Mas a realidade vai vir rapido e ignorar a transformação que está ocorrendo no mundo não vai impedi-la de acontecer e chegar aqui. As maquinas são nossas ferramentas, mas pode chegar o momento em que não seremos mais capazes de controlá-las. Portanto, precisamos decidir como queremos viver com elas.

Uma discussão que não pode ser adiada.

*Cezar Taurion é CEO da Litteris Consulting, autor de seis livros sobre Open Source, Inovação, Cloud Computing e Big Data