Gestão

Por que o Brasil ainda está atrasado em tecnologias para transparência?

Discussão no Fórum Econômico Mundial mostra desafios do país para avanço em soluções anti-corrupção

15 de Março de 2018 - 14h02

Corrupção é tema recorrente no Fórum Econômico Mundial América Latina, realizado nesta semana em São Paulo. Afinal, não é só o Brasil que sofre com escândalos recentes, escancarados com as inúmeras investigações da operação Lava Jato. Nossos países vizinhos também sofrem do mesmo problema, o que aumenta a preocupação. Prova disso é que o próprio Fórum, em busca de soluções para transparência, lançou uma plataforma que auxilia organizações no combate à corrupção.

A iniciativa prova que tecnologias têm poder para ajudar organizações a garantir transparência. Mas será que o poder público latino-americano está ciente disso?

Em debate sobre o tema, especialistas opinaram sobre os motivos que levam a chegarmos a um nível tão elevado de corrupção na região e, o mais importante, o que fazer para eliminarmos esse problema. A tecnologia seria uma saída? O cenário ainda é nebuloso.

Participaram do debate três especialistas em setor público: Denise Dresser, analista política do Instituto Tecnologico Autônomo do México (ITAM); Delia Ferreira Rubio, líder da Transparência Internacional na Alemanha; e o ministro da Justiça Torquato Jardim. A "voz da tecnologia" no debate foi Paula Bellizia, presidente da Microsoft no Brasil.

A executivo, claro, defende a implementação de tecnologias, como big data, identificação digital e blockchain, como importantes aliados para auxiliar o poder público. Mas será que a mensagem está chegando aos governantes?

Delia foi a única a citar, em seu discurso, a importância da tecnologia, junto a outras ações como fiscais independentes e educação da população sobre corrupção. Jardim, por sua vez, focou mais na explicação sobre a estrutura pública e privada, que causam a corrupção, além de hábitos dos próprios brasileiros. Já Denise defendeu, entre outras teses, o jornalismo independente para fortalecer a opinião pública. Jardim também citou a atuação mais forte de veículos de comunicação.

"A notícia não chega a todo o Brasil. O que se sabe sobre a Lava Jato é apenas 10%. Dos 3,5 municípios que foram auditados pelo Ministério da Transparência para saber o uso da verba federal, dois terços some com o dinheiro de merenda, saúde e material escolar. Isso é muito mais sério que Lava Jato. Estão destruindo o futuro das crianças no Brasil", disse Jardim.

O cenário do debate segue a linha do que já ocorreu abertura do evento, em que, mesmo quando o tema é o futuro, alguns dos líderes políticos brasileiros mostram pouco conhecimento e falta e habilidade para lidar o futuro de mudanças rápidas que já está acontecendo.

Patamar

Para Paula, a falta de foco em soluções tecnológicas demonstra que o Brasil ainda precisa alcançar novos patamares. Mas ela é otimista e cita a iniciativa de indústria 4.0 apresentada pelo governo brasileiro como exemplo de avanço do poder público. "A questão da transparência é mais crucial porque tem o jogo político discutido aqui", comenta.

No caso de transparência, a executiva afirma que projetos pilotos já estão acontecendo com o governo brasileiro e o que falta são ações afirmativas. "O fato é que há tecnologia e poder computacional para resolver a infraestrutura dessa discussão, que é prover informação, acesso e rastrear informações. Os técnicos nos ministérios estão fazendo testes, mas não existe política pública para que isso de fato aconteça", aponta.

No caso de rastrear informações, a grande aposta de Paula é na tecnologia de blockchain. "A beleza do blockchain é que toda informação é imutável e ninguém apresenta um documento que não tenha sua origem comprovada", explica.

Uso de tecnologia

Paula listou quatro maneiras como a tecnologia pode contribuir para a transparência no setor público. "Os cidadãos vêm demandando transparência e temos a certeza de que a tecnologia pode ajudar."

A primeira forma é trabalhar com os dados abertos da Lei de Acesso à Informação, que regulamenta o direito constitucional de acesso às informações públicas. "Hoje, poucos desses dados desse serviço são fáceis para serem usados por cidadãos", comenta. A ideia seria criar plataformas para que cidadãos tenham acesso e possa haver de fato transparência de informações com a comunidade.

O segundo ponto apontado por Paula é a identificação digital, que, com uso de blockchain, pode trazer rastreabilidade para que cada cidadão seja autenticado, para assegurar a reconhecer cada pessoa com fidelidade.

Ainda, outra oportunidade é aproveitar a rastreabilidade do blockchain para mapear todas as transações realizadas pelos governos. "É possível rastrear todos os processos e saber para onde foi parar cada centavo do orçamento."

Ainda, Paula comenta que a tecnologia pode ser crucial para controle das compras públicas. "há tecnologias de big data e inteligência artificial para antecipar ações consideradas ilícitas dentro do processo de compras", completa.