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Pontos de inflexão da sociedade digital em 2025

Estudo do World Economic Forum ajuda a compreender os impactos das mudanças que estão por vir

15 de Fevereiro de 2016 - 10h08

Indiscutivelmente, na Quarta Revolução Industrial o software passa a ser a alavanca das mudanças na sociedade. O impacto das transformações que veremos nos próximos 10 a 15 anos será muito maior do que em qualquer outra era de revolução tecnológica. Pesquisa recente da McKinsey mostrou uma diferença significativa de desempenho entre as empresas que já despertaram para a necessidade de produzir software de forma rápida e eficiente. A pesquisa mostrou que entre as empresas pesquisadas, as que se situavam no quartil superior apresentaram uma característica em comum: produtividade de criação de software três vezes superior aos do quartil inferior.

Fica nítido que a diferenciação competitiva está na sua capacidade de entregar software. Software não é mais um assunto para nerds e de responsabilidade única dos CIOs. Começa a ser também uma preocupação de qualquer CEO que queira manter sua empresa relevante nos próximos anos. Os CEOs devem estar antenados para o fato que a capacitação de desenvolvimento de software em suas empresas, qualquer que seja o setor de indústria, passa a ser o elemento chave na diferenciação e criação de valor de produtos e serviços.

Com este pensamento, aproveitei a pausa do Carnaval para ler atentamente um relatório muito instigante, do World Economic Forum, publicado em setembro de 2015, chamado “Deep Shift – Technology Tipping Points and Societal Impact” . Ele aponta quais tecnologias terão potencial de remodelar a nossa sociedade. E, claro, software está no centro de todas elas.

Aqui faço dois lembretes: “tipping point” ou ponto de inflexão é aquele momento onde a tecnologia alcança massa crítica suficiente para se disseminar pela sociedade e causar impactos. E esta disseminação é exponencial. Infelizmente, o nosso pensar de forma linear, diante de uma evolução que é exponencial, nos leva à terrível armadilha de subestimar o impacto das transformações.

Um bom exemplo do quanto subestimamos a mudança exponencial é o Human Genome Project, lançado em 1990, com estimativa de ser concluído em 15 anos a um custo de US$ 6 bilhões. Em 1997, metade do prazo previsto, apenas 1% do genoma humano tinha sido sequenciado. Pelo planejamento linear, continuando no mesmo ritmo (sete anos para avançar 1%), levaríamos 700 anos para concluir o sequenciamento. Parece lógico não? Diante dessa perspectiva, a pressão para encerrar o projeto foi imensa, mas quando perguntaram ao futurista Ray Kurzweil, ele disse:“1% significa metade do caminho. Vamos em frente! ”. Kurzweil pensou exponencialmente. 1% dobrando a cada ano significa chegar a 100% em 7 anos. O projeto foi concluído em 2001, quatro anos antes do planejado, custando muito menos que o estimado. O pensamento linear, tradicional, errou o alvo por 696 anos!

Vemos a exponencialidade em toda a parte. A nossa presença digital tem se disseminado muito rapidamente, com crescimento exponencial. Em 1995, a apenas 21 anos, 0,6% ou cerca de 35 milhões de pessoas estavam na Internet. Hoje são cerca de 43%. O relatório do World Economic Forum estima que em 2025 cerca de 80% da população do planeta já estará conectada à Internet. Perfeitamente possível pela expansão das redes wireless, que demandam muito menos infraestrutura que as redes fixas. Hoje cerca de 85% da população do planeta já vive próximo a, pelo menos, uma torre de celular, que pode prover este acesso. Projetos alternativos e complementares já estão em desenvolvimento e em breve estarão ampliando este alcance de conexão como o Internet.org do Facebook e seus drones, o Project Loon dos balões do Google, e o da SpaceX com redes de satélites de baixo custo. O acesso à Internet passará a ser um direito básico da sociedade, assim como o acesso à agua potável.

Dez anos atrás, interagíamos via um desktop ou laptop com e-mail, navegávamos em sites, podíamos até ter um site pessoal ou um blog e um celular com alguma interatividade. O iPhone só surgiu em 2007. Hoje interagimos com um smartphone que é um computador de bolso, compartilhamos ideias e expressamos nossas opiniões via várias redes sociais como Facebook, Twitter, Instagram, Snapchat e outras, e usamos apps para nos ajudar em praticamente todas as nossas atividades diárias. Só para termos uma ideia, das 10 maiores populações do planeta, três são plataformas sociais, como Facebook, Twitter e Instagram. O Facebook é, caso fosse um país, o mais populoso, com 1,5 bilhão de pessoas, seguido pela China, com 1,360 bilhão e Índia, com 1,240 bilhão.

O smartphone merece uma atenção à parte. Estima-se que em 2019 serão 3,5 bilhões, o que significa que 59% da população do mundo terá um, ultrapassando os 50% da população, previsto para ser alcançado já no ano que vem, em 2017. Novamente, o crescimento não é linear, mas exponencial. A tendência nítida é o acesso à Internet acontecer via estes aparelhos, e não mais por desktops e/ou laptops. Em alguns países como Singapura e Coréia do Sul, 90% da população usam smartphones. O crescimento da capacidade computacional destes smartphones é impressionante. O iPhone 4 de 2010 tinha a mesma capacidade de um Cray-2, o supercomputador mais rápido do mundo em 1985. O Apple Watch, que apareceu cinco anos depois, em 2015, já apresentava uma capacidade de dois iPhone 4! Ou seja, literalmente, cada usuário de smartphone tem um supercomputador de 30 anos atrás, que custava vários milhões de dólares a um custo de poucas centenas de dólares.

A capacidade de memória também evolui de forma exponencial e provavelmente em 2025 a imensa maioria da população terá acesso a espaço quase ilimitado e gratuito de armazenamento, por novos modelos de negócios como os baseados em propaganda e não mais venda ou aluguel. Hoje estima-se que 90% dos dados do mundo foram criados nos últimos dois anos e este crescimento exponencial continuará nos próximos anos. O volume de informações gerados pelas empresas dobra a cada 1,2 anos. Armazenamento está rapidamente se transformando em commodity, liderado por empresas como Amazon (AWS) e Dropbox. Uma “comoditização” do armazenamento com a acesso livre e ilimitado matará qualquer empresa de tecnologia cujo modelo de negócios é vender discos magnéticos para usuários, sejam estes, empresas ou pessoas físicas. É um negócio que só existirá para suportar os grandes fornecedores de armazenamento.

Deste relatório, que merece ser lido com atenção, destaquei algumas tecnologias que me chamaram a atenção pelo seu impacto nos negócios.

A primeira é a Internet das Coisas. Uma estimativa de 1 trilhão de objetos (sensores) conectados em 2025 é impressionante. A visão do relatório é a de que praticamente todo objeto físico poderá estar potencialmente conectado. Estarão em todos os lugares, mudando processos, criando novos modelos de negócio e abrindo novas oportunidades (e riscos) para as empresas e a sociedade. Cada vez mais teremos casas conectadas e cidades inteligentes. A previsão é a de que, em 2025, pelo menos uma cidade de 50 mil habitantes não terá sinais de trânsito, porque eles não serão mais necessários. Os veículos inteligentes já começarão a ser lugar comum. Pelo menos 10% dos veículos em circulação no mundo serão autônomos, ou seja, não precisarão de motoristas. Em algumas cidades, talvez, o movimento dos taxistas contra o Uber terá sido substituído pelos dos motoristas do Uber contra os veículos autônomos...a profissão de motorista, seja de caminhão ou táxi tende naturalmente a desaparecer nas próximas décadas, como a das datilógrafas e ascensoristas.

O crescente uso de dados permitirá que, em 2025, um país possa substituir o seu censo periódico pelo uso intensivo de análises de dados baseados em Big data. IA (Inteligência Artificial) e “Machine Learning serão “business as usual” e não mais experimentações isoladas de poucas empresas.

Vejamos alguns exemplos do cenário previsto pelo relatório.

Cerca de 30% das auditorias corporativas serão feitas não mais por auditores, mas sim por sistemas inteligentes. O mesmo poderá acontecer em outras áreas. O sistema Watson da IBM já demonstrou, em diagnósticos de câncer de pulmão, uma taxa de acerto de 90%, superior à dos médicos, que geralmente fica nos 50%. A razão é simples: imensa e variada massa de dados a serem analisados. Para um médico se manter atualizado com as descobertas e inovações no setor são necessários, no mínimo, 160 horas por semana. Assim, sistemas como Watson poderão ajudar em muito o tratamento de doenças.

Outro “tipping point” da IA será a presença de sistemas inteligentes no board de diretores de empresas. Aliás, recentemente, uma empresa de venture capital baseada em Hong Kong, a Deep Knowledge Ventures, “nomeou” um algoritmo chamado VITAL (Validating Investment Tool for Advancing Life Scientes) para seu board. E a empresa ConceptNet, já demonstrou que seu algoritmo passou em testes de QI com resultados superiores ao de crianças de 4 anos. Três anos atrás mal conseguia vencer uma criança de um ano. E no ano que vem já estará disputando com crianças de seis anos.

Outros pontos de inflexão serão alcançados em 2025. Pelo menos 10% do PIB global estará sendo gerenciado pela tecnologia blockchain, através de moedas virtuais como Bitcoin e outras. Hoje, esse prencentual não passa de 0, 025%. Governos também passarão a coletar impostos via blockchain. No ano passado foi criada a BitNation, primeira nação virtual, baseada em blockchain como tecnologia para identificação única de seus cidadãos. A Estônia já se tornou a primeira nação do mundo a adotar oficialmente a tecnologia blockchain.

A economia do compartilhamento também será comum. Estima-se que em 2025 mais jornadas serão feitas no mundo por “car sharing” do que por veículos próprios. E as impressoras 3D estarão em todos as atividades. Estima-se que por volta de 2025 seja fabricado o primeiro carro totalmente produzido por uma impressora 3D. Isso simplesmente tornará uma impressora 3D substituta de uma fábrica inteira. Espera-se também que 5% dos produtos de consumo já sejam produzidos em impressoras 3D. Veremos transplantes de fígado criado por estas impressoras. Aliás, em 2014 a China conseguiu implantar uma seção de uma vértebra fabricada por uma impressora 3D, substituindo uma vértebra cancerosa no pescoço de um paciente. Já paramos para pensar nas consequências disso para os negócios atuais?

Assim, as mudanças estão acontecendo em ritmo acelerado, exponencialmente. Seu poder de transformação da sociedade e empresas não pode ser ignorado. Os executivos das empresas, sejam CEOs ou CIOs, devem estar antenados com estas mudanças que já estão no cenário estratégico de curto a médio prazo, e que mudarão de forma significativa as estruturas sociais, empresariais e, consequentemente, os modelos de negócio. Os bilhetes para o trem estão se esgotando e se não corrermos, vamos perdê-lo.

*Cezar Taurion é CEO da Litteris Consulting, autor de seis livros sobre Open Source, Inovação, Cloud Computing e Big Data