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O que falta para o profissional de TI construir uma carreira internacional?

Ter pleno conhecimento da realidade econômica e política do país, além de saber como funciona a operação das empresas locais, é um diferencial altamente valorizado pelos recrutadores

22 de Junho de 2017 - 15h43

A situação política e econômica do Brasil é desanimadora. Por qualificado que seja um profissional, hoje em dia ele vive sob o “fantasma” da demissão, que pode chegar a qualquer momento. No que se refere aos profissionais seniores a questão atinge níveis ainda mais preocupantes, uma vez que este perfil tem menos chances de obter uma recolocação.

Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que o Brasil atualmente tem mais de 14 milhões de pessoas desempregadas e a expectativa é que esse número cresça até o fim do ano. Esse cenário faz com que muitos profissionais considerem construir carreira em outros países, e no segmento de TI não é diferente. Porém, para ter sucesso no exterior é preciso se preparar da forma adequada para atender às exigências internacionais. Quais serão os desafios? Que diferenças culturais esses profissionais precisarão superar para alcançar bons resultados e estabilidade?

O Brasil possui muitos profissionais com grande experiência em processos de negócios, geralmente mais articulados e criativos se comparados a consultores de negócios americanos ou europeus, mas deficientes em alguns pontos fundamentais para que eles conquistem seu espaço. Por outro lado, as oportunidades existem. Eles só precisam estar atentos às suas possíveis “fraquezas” e trabalhar para superá-las.

Com alguns anos de experiência no exterior, incluindo seleção e gestão de equipes, posso dizer que, antes de tudo, é necessário entender amplamente a cultura local. Ter pleno conhecimento da realidade econômica e política do país, além de saber como funciona a operação das empresas locais, é um diferencial altamente valorizado pelos recrutadores. Fácil apontar, como solução de um problema de logística, que a empresa passe a importar produtos da China. Mas, antes disso, é importante saber, por exemplo, se essa não é uma prática reprimida pela atual gestão política do país em questão. Dessa forma, ao decidir que você quer trabalhar em um determinado país, estude sobre ele. Pesquise sobre sua economia, cultura, relações comerciais, etc. Quanto mais “por dentro” você estiver, maiores serão as chances de ter sucesso.

Na área comercial e no atendimento/relacionamento com o cliente, o fator comunicação é fundamental. Uma bagagem profissional de anos não vale nada no exterior se o profissional não souber se comunicar adequadamente ou não for articulado a ponto de sustentar uma negociação, reunião ou apresentação na língua local.  Assim, se ainda não tiver tido uma vivência no exterior – um bom diferencial por si só — invista no inglês, porque o desenvolvimento do vocabulário de business é essencial para quem busca integrar equipes internacionais.

Aproveite também as redes sociais, onde é fácil encontrar grupos e canais gratuitos com excelentes dicas e até aulas online. Apenas 30 minutos diários, por cerca de três meses, fazem uma enorme diferença e desenvolvem o profissional. Isso é importante porque, diferentemente do que ocorre no Brasil, onde prioriza-se o relacionamento pessoal, no exterior primeiro precisa-se passar pela barreira profissional, somente depois disso vêm as amizades, que ficam em segundo plano.

Continuando com a comparação Brasil versus exterior, outra dica importante é: esqueça o jeitinho brasileiro, porque ele só funciona aqui. Lá fora, em qualquer país, ele causa péssima impressão. Os estrangeiros querem respostas práticas e objetivas, com garantia de resultados. Fora que, vale lembrar, o fato de o profissional ser “o forasteiro” gera ainda mais pressão na cobrança por resultados.

Falando em pressão, chego à penúltima dica: esteja preparado emocionalmente para trabalhar no exterior. Uma das características do brasileiro é o vínculo afetivo com a família, este é um fator que precisa ser trabalhado com cuidado numa mudança para outro país. Nenhuma empresa quer contratar um brasileiro que precise voltar para o Brasil a cada 15 dias, isso torna o custo final deste profissional muito maior se comparado com o recurso local, acabando por reduzir suas chances de contratação. O desafio de encarar um trabalho no exterior precisa contar com planejamento, apoio familiar e 100% de segurança para funcionar.

Por último, uma sugestão básica, mas que nem todos consideram: se tiver a intenção de trabalhar em outro país, tenha em mãos toda a documentação necessária. Visto de trabalho internacional, outros documentos necessários – seus e da família, se for o caso — para a migração (que dependem muito de um país para outro) e situação profissional regularizada são exigências que dependem do profissional, não da empresa que vai contratá-lo. Há aspectos complicadores pelo lado da empresa que adota esse tipo de requisição, então, o que você puder adiantar, sozinho, ajuda bastante.

Trabalhar no exterior é desafiador, mas tem o poder de desenvolver habilidades que talvez o profissional nunca conseguisse desenvolver atuando somente no Brasil. Por isso, considere a possibilidade, estude seu mercado, informe-se sobre as opções, veja se vale a pena. Há diversas empresas à procura de talentos brasileiros em Tecnologia para integrar projetos internacionais. A aventura de trabalhar fora do país pode ser uma realidade mais próxima do que você imagina.

*Paulo Borba é CEO da Borba&Lewis, consultoria brasileira de TI com operação nos EUA e Portugal.