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O legado que trouxe você até aqui não levará sua empresa para o futuro

Por que as empresas tradicionais ainda relutam em abraçar a nuvem? Para Bruce Bordelon e Joe Kava, da Google Cloud, pelos motivos errados

19 de Outubro de 2017 - 19h33

O coach norte-americano Marshall Goldsmith, mentor de centenas de presidentes de grandes empresas globais, usa uma frase genial no título de um dos seus best-sellers: What Got You Here Won't Get You There (O que te trouxe até aqui não é o que vai te levar para frente). O que Goldsmith prega é que para ter sucesso é preciso mudar, largar velhos hábitos e não se apegar ao que deu certo no passado.

Quando falamos de transformação digital, a frase de Goldsmith ganha especial relevância. Para muitas empresas tradicionais, a migração para cloud computing, por exemplo, ainda é adiada por conta do passado: os sistemas legados, as eventuais latências, o apego ao software on-premisses.

Não que isso tudo não deva ser levado em conta na hora de decidir o que migrar e como migrar, mas é que, ao se apegar ao modelo do passado, as empresas não colocam na equação as vantagens das novas plataformas, que não podem muitas vezes ser replicadas on-premisses - ou nem existem fora da nuvem.

Para Joe Kava, vice-presidente global de data centers do Google, e Bruce Bordelon, diretor de engenharia de cliente de cloud do Google, as empresas tradicionais precisam mudar o foco da lente sobre cloud, e ao CIO cabe uma parte importante dessa revisitação.

"Há uma análise de risco que toda empresa precisa fazer: 'qual o risco para meus negócios de eu ficar preso ao legado?'", diz Bordelon, lembrando que a maioria das crises com perdas de dados por brechas de segurança aconteceram por conta de furos nos sistemas antigos.

Os dois executivos estiveram no Brasil em setembro para o lançamento oficial da primeira região da Google Cloud para a América Latina, instalada em São Paulo. A Google Cloud, agora local, traz vantagens para as empresas da região, como a redução do tempo de latência em até 95% e a cobrança, que agora passa a ser em moeda local (Reais).

Kava diz que ao tirar da frente dois empecilhos básicos - o modelo de pagamento e a latência - a GCP oferece um novo horizonte para os CIOs, que é usar a camada inteligente de aplicações que a nuvem dá às empresas, como por exemplo os motores de machine learning para uso de inteligência artificial. 

Após o evento de lançamento, Bordelon e Kava concederam uma entrevista exclusiva ao COMPUTEWORLD, que você acompanha a seguir:

COMPUTERWORLD: As empresas nativas digitais veem a nuvem como plataforma natural para seus negócios. Mas quando se trata de empresas tradicionais, o desafio é convencê-las pensar em cloud computing com a mesma naturalidade. O que o CEO precisa saber, o CFO deve avaliar, e o CIO precisa fazer para isso acontecer?

BRUCE BORDELON - Os nativos digitais são o grupo mais fluido na nuvem. Tipicamente usam todos os recursos de cloud disponíveis e esses recursos hoje replicam todas as aplicações e ferramentas que uma empresa poderia pensar em usar on-premises.

Quando olhamos as empresas tradicionais, o uso não é tão abrangente ainda e acontece em etapas. Tipicamente o que vemos são as empresas indo para a nuvem em busca de um lugar para reunir, analisar, entender e tirar vantagem dos dados gerados pela corporação, por uma divisão de negócios ou por consumidores. Temos nesse caso as melhores ferramentas de análise de dados.

Depois dessa experiência, as empresas começam a pensar em agregar novas camadas de tecnologia que oferecemos, como machine learning, por exemplo, como uma segunda etapa.

Portanto, minha recomendação é começar com os dados, ganhar vantagem com eles e daí partir para um inventário das suas aplicações, definindo o que deveria ser movido agora, o que deveria ser mais acelerado, que aplicações precisam ser reformatadas para ir para a nuvem, que coisas talvez só funcionem on-premises.

CW: Os sistemas legados e o custo de transformar esse legado em algo que rode em nuvem é ainda um grande empecilho para as empresas pensarem em migrar para cloud?

BRUCE BORDELON - Sobre o legado, acho que há uma análise de risco que toda empresa precisa fazer: "qual o risco para meus negócios de eu ficar preso ao legado". O que pode vir a acontecer de errado, versus o custo e o trabalho de refazer as aplicações. Veja o exemplo da brecha de segurança da Equifax e as contínuas notícias de brechas e perda de dados nas empresas.

Porque, francamente, ficar se agarrando a tecnologias antigas, recusar-se a migrar para uma nova plataforma, pode ser um dano muito mais oneroso para os negócios do que investir na mudança. A rede, o centro de dados está em risco. O CIO precisa encarar esse problema e analisar esse risco.

CW - Com a chegada da Google Cloud Platform fisicamente a São Paulo, vocês apresentaram duas vantagens como sendo muito importantes para os clientes: pagamento em reais e redução drástica da latência. Qual delas deverá motivar mais a migração dos negócios tradicionais?

JOE KAVA - O que fizemos foi remover as barreiras mais básicas que poderiam impedir a entrada na nuvem. Muitos CIOs ainda se apegam ao potencial custo de mudar o legado como impeditivo para fazer a migração. Se ainda tivermos outros elementos, como latência, que poderia levar os consumidores ou parceiros a reclamar da mudança, ou a cobrança em outra moeda sem ser a do país, a migração é prejudicada.

O que estamos fazendo é remover sistematicamente as barreiras que impedem a migração para a nuvem, uma por uma. Estamos permitindo às pessoas entrar na nuvem usando sua própria moeda e oferecendo performance similar ao que possuem on-premises.

E aí se conseguirmos mostrar a elas as vantagens do custo-benefício de migrar, isso ajuda a construir um plano de negócios mais amplo que faça mais sentido.

CW - Quando tiramos da frente os empecilhos mais básicos, a nuvem ganha um novo atrativo, que é a possibilidade de utilizar serviços inteligentes em cloud. Esse seria o grande salto. O que as corporações precisam saber mais para favorecer a migração? Como a TI pode fazer esse convencimento?

BRUCE BORDELON - Muitas empresas ainda olham de forma ingênua o que a tecnologia pode fazer por elas e algumas acham que existe um pó mágico das fadas nessas tecnologias que basta espalhar para tudo se transformar.

As companhias que estão criando aplicações de machine learning sabem que é preciso ter times dedicados com pessoas especializadas em dados para construir isso. Se uma empresa não possui esse time ainda, possivelmente teria mais dificuldade para criar as aplicações, e é aí que oferecemos as vantagens dos nossos módulos de IA.

JOE KAVA - Eu trabalhava na TI de uma grande companhia tradicional antes de vir para a Google e uma coisa era típica e ainda é: a TI era vista como um grande peso, como um grande custo para o negócio. O que eu fazia então era tirar proveito de qualquer momento possível para traduzir o que faziamos e mostrar como TI podia influenciar positivamente os resultados de negócios e gerar mais lucros.

Isso fazia com que as discussões sobre ter mais fundos para investir em TI ficassem mais fáceis. Um exemplo de como se vira a mesa é em uma empresa do varejo. Na GCP, conseguimos analisar toneladas de dados de vendas e do consumidor, gerando insights que podem aumentar as vendas e ajudar o marketing a fazer campanhas, em uma velocidade muito maior do que on-premises.

Isso dá à TI, por exemplo, a força de chegar ao marketing e dizer que, com a nova plataforma, essas avaliações podem ser feitas com mais frequência e gerar mais lucros. É nessa hora que o departamento de TI consegue o dinheiro que ele precisa para dar o salto para novas tecnologias.

CW- O que devemos entender então é que os CIOs precisam aproximar a TI ainda mais da jornada do consumidor da sua empresa e, portanto, se aliar aos CMOs?

BRUCE BORDELON - Temos contato com muitos CMOs por causa das nossas ferramentas que hoje os auxiliam a tocar as campanhas de marketing e de publicidade. Temos uma presença forte na vida digital deles. Portanto sabemos que ao apresentar para eles oportunidades de ter mais análises de comportamento do consumidor ou das vendas, temos como resposta um entusiasmo pela adoção da tecnologia.

JOE KAVA - Há um bocado de empresas entrando nessa jornada de transformação digital, certo? Pois é a oportunidade de TI usar o argumento de, ao invés de gastar milhões para montar toda uma operação digital paralela on-premises para testar as novas práticas, usar a nuvem e tirar proveito da camada de serviços inteligentes que ela tem para testar e construir os experimentos. Se nao der certo, o valor do dinheiro envolvido vai ser muito menor e a velocidade de teste muito maior.