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Maersk e IBM criam joint venture para levar blockchain aos sete mares

Plataforma de comércio global usará a tecnologia para reduzir o custo do transporte marítimo e as ineficiências dos processos baseados em papel

16 de Janeiro de 2018 - 20h56

A Maersk e a IBM anunciaram nesta segunda-feira criação de uma joint-venture com o objetivo de criar, implantar e comercializar uma plataforma de serviços baseada em tecnologia blockchain para o transporte global marítimo. A plataforma deverá digitalizar o suporte processual às cadeias de abastecimento e acompanhar o transporte internacional de mercadorias em tempo real.

O novo sistema poderá economizar anualmente alguns milhares de milhões de dólares para a indústria de transporte marítimo global, ao substituir os sistemas EDI, ainda baseados em processos de papel, que atrasam a circulação de containers, dizem as empresas.

Nos últimos 18 meses, a Maersk, com sede na Dinamarca, desenvolveu um projeto piloto para a plataforma blockchain com vários clientes, incluindo a DuPont, a Dow Chemical, a Tetra Pak, o Port Houston, o Rotterdam Port Community System Portbase, a administração aduaneira da Holanda, e a alfândega e a serviços de proteção de fronteiras dos EUA.

A nova empresa da Maersk e da IBM ainda precisa de obter aprovação regulamentar, e só então terá seu nome anunciado. Mas os parceiros esperam que a nova plataforma esteja disponível nos próximos três a seis meses, de acordo com o atual presidente da Maersk Line da América do Norte, Michael White, que será o CEO da nova empresa

A plataforma foi construída com a tecnologia de blockchain da IBM, fornecida através de cloud computing do fabricante. O serviço é baseado na especificação de open source, Hyperledger Fabric 1.0, criada pela Linux Foundation.

“Tem de se basear em normas abertas … e ser uma plataforma neutra para o fornecedor, de modo a que todas as outras linhas marítimas que o usassem, pudessem estar em pé de igualdade”, diz Ramesh Gopinath, vice-presidente da Blockchain Solutions, na IBM. “Essa também é a razão pela qual é uma empresa separada da Maersk e da IBM”.

Visibilidade e agilidade

As duas empregaram outras tecnologias abertas baseadas em cloud na plataforma, incluindo inteligência artificial, IoT e analítica, para ajudar as empresas a moverem e monitorizarem a circulação de produtos digitalmente através das fronteiras internas. Fabricantes, companhias marítimas, transitários, operadores de portos e terminais, e autoridades aduaneiras deverão poder aceder o painel virtual da plataforma de forma autorizada.

A blockchain vai permitir uma visão unificada, por meio de um painel virtual, sobre todos os bens e informação de transporte disponibilizados por todas as partes envolvidas no comércio mundial: fabricantes, transportadoras, autoridades portuárias e outras agências governamentais.

Como é imutável e distribuída, a tecnologia blockchain vai também melhorar a segurança, diz Michael White. “Com a blockchain, as melhorias na segurança são significativas devido à dupla cifra”, assinalou White. “Algumas das vantagens oferecidas pela blockchain são a imutabilidade do registo e a confiança que ela dá às pessoas. Se alguma coisa for alterada num documento, isso é imediatamente detectado por todos”, justifica White. 

A plataforma empregará contratos de execução automática (“smart contracts”) definidos para os produtos enviados e a autorização exigida durante o transporte.

A imutabilidade nativa como registo distribuído também criará um mecanismo automático de auditoria para reguladores, algo que o setor necessita há muito tempo. Além da documentação em papel, grande parte da informação do setor internacional dos transportes tem sido transmitida por EDI ‒ tecnologia com 60 anos de idade. Uma vez que os manifestos de transporte se movam para uma tecnologia baseada em API na nova plataforma, os transportadores e todos os demais elementos da cadeia de suprimentos terão informações mais atualizadas e visibilidade melhorada sobre os transportes, disse White.

A plataforma empregará contratos de execução automática (“smart contracts”) definidos para os produtos enviados e a autorização exigida durante o transporte. “O ponto-chave é saber como eliminar ou mitigar os atrasos e como você pode encurtar a espera por informações ou documentação para a carga circular eficientemente”, disse White.

Abacates e burocracia

O executivo cita como exemplo do processo atual lento o transporte de abacates de Mombasa, no Quênia, para o porto de Rotterdam, nos Países Baixos, que pode levar até 34 dias. Ao todo as autoridades portuárias aguardam durante duas semanas, informações de embarque e aprovação de documentos governamentais.

Segundo White, a remessa de abacate envolve 30 funcionários portuários e governamentais e 200 comunicações entre 100 pessoas. “Portanto, se algum dos documentos sofrer atrasos ou se houver questões de validade, o envio será suspenso”, acrescentou.

O transporte internacional de cargas é uma indústria que vale US$ 4 trilhões por ano, e 80% dos bens são transportados em navios. Grande parte da logística envolve processos em papel, para criação de documentos de carga, acompanhamento de embarques e até mesmo para obtenção de aprovações das autoridades aduaneiras e portuárias.

À medida que o custo e o tamanho dos ecossistemas comerciais mundiais continuam a ficar mais complexos, o custo da documentação comercial, requerida para processar e administrar mercadorias enviadas globalmente, deverá representar um quinto dos custos reais de transporte físico.
De acordo com o Fórum Económico Mundial, ao reduzir barreiras dentro da cadeia de abastecimento internacional através de comunicações electrônicas transparentes, o comércio global pode aumentar quase 15%.

É possível entender mais sobre a nova joint-venture e seus processos no site oficial de Blockchain da IBM