Gestão

Líderes políticos deixam de lado revolução digital

Mesmo quando questionados sobre estímulos à inovação e indústria 4.0, Temer, Alckmin e Doria demonstram falta de atenção e foco ao tema

14 de Março de 2018 - 14h51

A cidade é São Paulo. A mais rica do País, um centro de empreendedorismo e onde o ecossistema de startups envoltas em tecnologia fervilha, sede das principais companhias de tecnologia presentes no mercado nacional e casa, nesta semana, do Fórum Econômico Mundial, capítulo América Latina. Enquanto em Davos, na edição global do evento, temas como tecnologia, transformação, futuro do trabalho e indústria 4.0 estiveram na pauta e na ponta da língua de grandes líderes globais. Na abertura do evento regional, no entanto, mesmo quando falaram do futuro, os líderes políticos brasileiros mostraram pouco conhecimento e falta e habilidade para lidar com o esse futuro de mudanças rápidas que já está acontecendo.

O líder da mesa durante a cerimônia de abertura, Klaus Schwab, fundador e chairman executivo do Fórum Econômico Mundial e autor de livro que trata dessa nova revolução industrial, deu pinceladas dessa transformação a cada vez que convidava os políticos brasileiros, ainda assim, eles optaram por tratar de questões locais e deixar algumas palavras soltas sobre essa transformação que aplaca a sociedade e que devem causar ainda grandes mudanças.

O presidente Michel Temer, em sua fala, apenas citou as reformas que fez ou tentou fazer, o mais próximo que ele chegou do mundo digital foi a citação ao satélite geoestacionário que permitiu a chegada da banda larga em diversos rincões do Brasil, sobretudo em comunidades mais afastadas das regiões Norte e Nordeste. Quando, no momento de debate, foi questionado por Klaus sobre fomento à inovação, empreendedorismo e indústria 4.0, apenas falou de projetos de desburocratização.

Geraldo Alckmin, governador do Estado de São Paulo e possível postulante à Presidência da República, seguiu uma linha parecida. Foi um pouco além do presidente ao mencionar Schwab como referência em tecnologia e empreendedorismo, dizendo que é preciso enxergar mais longe “nesse mundo de mudanças e oportunidades que se avizinham”. Muito pouco para o líder do Estado mais rico, com a principal universidade do País e com polos de tecnologia em diversos pontos.

O governador, no entanto, foi mais feliz que o presidente ao responder ao questionamento sobre inovação, empreendedorismo e futuro, trazendo para a mesa do tema de educação e o peso que isso terá, desde a parte mais básica, chegando às universidades, num contexto de transformação, onde tudo precisa ser revolucionado e onde pessoas carecerão de novas profissões. "Educação de qualidade será a base para esse mundo desafiador e precisaremos integrar universidades, empresas, institutos de pesquisa e parques tecnológicos.” O governador lembrou ainda das ações com escolas técnicas e a rede Fatec, além do projeto Sirius, em Campinas, que trabalha pesquisas num acelerador de partículas e está em fase final de implantação.

Por fim, outro expoente da política nacional, o prefeito de São Paulo, João Doria, que deixou no ar seu otimismo em concorrer ao governo do Estado, já exaltando Bruno Covas, seu vice, como futuro prefeito da cidade, e Alckmin como futuro presidente. Ele usou sua explanação quase que unicamente para defender o liberalismo econômico. No debate, focou no empreendedorismo, trazendo exemplos um pouco mais práticos do impacto do mundo digital, como a redução do prazo para abertura de empresa, que até janeiro do ano que vem deverá ser de 1 dia na capital paulista, dos processos de compra e do projeto de eliminação do papel nos mais variados processos da prefeitura, que deve tornar a prefeitura 100% digital até janeiro de 2019. Disse ainda, que estimula o empreendedorismo por meio do incentivo ao microcrédito e lembrou que, de acordo com pesquisa encomendada à FGV, 78% dos jovens da periferia paulistana querem empreender.

Faltou aos três um aprofundamento maior em conceitos que tratam desse mundo de mudanças e do imbroglio em que a sociedade estará inserida caso não encare isso com a mesma seriedade que se encara uma reforma da previdência ou trabalhista. De nada adianta criar regras para trabalho e previdência para um povo que pode padecer ao emprego do futuro por falta de visão, estratégia, formação e investimento. São milhares de empregos e funções em cheque pelo avanço de tecnologias como inteligência artificial, computação cognitiva, entre outras. E ainda que novas vagas sejam criadas, boa parte da população precisará sobreviver de outra maneira que não o emprego formal da forma que conhecemos atualmente. E é a esse tipo de questionamento que políticos deveriam estar aptos a responder, discutir e refletir. O trabalho até outubro ainda parece ser bastante longo.