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Chips próprios são a solução para MacBooks mais empolgantes?

Como um processador personalizado poderia pode abrir um mundo de possibilidades para a Apple

05 de Abril de 2018 - 18h27

Já faz algum tempo desde que os usuários de Macs tiveram motivos para ficarem animados com um novo processador. Não que a Intel não esteja se esforçando – apenas nesta semana a fabricante revelou a primeira leva de chips Coffee Lake para laptops com seis núcleos e velocidades prometidas próximas de 5GHz – mas desde que a Apple mudou para processadores x86, os núcleos e as velocidades de clock não significam mais tanto no Mac como antes.

Quando os Macs rodavam processadores RISC, velocidade era a única coisa que importava. Enquanto o restante do mercado de PCs tinha chips da Intel, os computadores da Apple contavam com chips gigantes, à medida que o Mac buscava convencer os usuários Windows de que eram mais rápidos e eficientes no uso de energia do que seus rivais com Pentium.

Esse não é mais o caso realmente. Quando os chips mais novos da Intel chegam aos MacBook Pros top de linha, a maioria da animação já passou e as pessoas estão esperando pela próxima geração de processadores.

O update do MacBook Pro no ano passado trouxe os processadores Kaby Lake para os notebooks da Apple, mas eles não entregaram muito em termos de melhorias gráficas ou de velocidade. E não seria nenhuma surpresa se o MacBook não receber os novos Core i9 até 2019.

Mas nem tudo está perdido. Uma reportagem recente da Bloomberg aponta que a Apple está trabalhando para desenvolver os seus próprios processadores de desktop e notebook e que eles podem chegar aos Macs em 2020. E essa pode ser exatamente a injeção de ânimo que a Apple precisa para colocar os seus computadores no lugar em que merecem estar, no topo da cadeia.

É compreensível se os usuários de Mac tiverem ficado com um pouco de inveja ao ler sobre as novidades apresentadas pela Intel nesta semana. Não apenas chegaram os primeiros laptops com os novos chips Core i7 de alta performance da série H, mas a fabricante também revelou a próxima geração dos chips Core i9 para laptops.

Mas é essa frase do gerente geral de notebooks premium e de games da Intel, Fredrik Hamberger, que mais magoou os usuários da Apple: “Passamos muito tempo com as nossas parceiras OEM otimizando o desempenho em termos de uso de energia, refinando componentes térmicos para conseguir mais desempenho.”

Em uma época diferente, uma dessas parceiras OEM (Original Equipment Manufacturer) seria a Apple. Quando a transição para a Intel estava à toda, as visões sobre chips otimizados da Intel dançavam nas cabeças dos usuários, mas, na verdade, eles receberam apenas upgrades modestos e prontos para uso na maioria das vezes. Em alguns casos, os primeiros modelos com chips da Intel ficaram atrás de chips de gerações anteriores do G4 e G5, e a única coisa em que a transição para a Intel realmente foi bem-sucedida foi tornar os upgrades do Mac previsíveis e brandos.

A parceria entre a Apple e a Intel nunca se materializou de verdade, e nos últimos 10 anos, os Macs foram basicamente tão bons quanto seus rivais PCs, não melhores de uma maneira significativa. É por isso que a Apple está olhando em outros lugares para o futuro do Mac. E, após o sucesso com o iPhone, não é realmente uma surpresa o fato de um chip para Mac poder estar sendo desenvolvido pela própria empresa de Cupertino.

Entrando no ritmo

Você só precisa olhar para o iPhone para ver o potencial de um chip de Mac feito dentro da Apple. Até mesmo os processadores Coffee Lake mais recentes ainda estão usando um processo de 14 nanômetros, e os primeiros chips Cannon Lake mobile de 10 nanômetros devem chegar apenas no final do ano. A Apple, por outro lado, introduziu o chip A11 Bionic de 10 nanômetros junto com os iPhones 8 e X no fim de 2017.

Parte desse atraso é por conta das vulnerabilidades Spectre e Meltdown, que obrigaram a Intel a redesenhar os seus chips para corrigir o problema, mas também é resultado de uma complacência da companhia. Sem nenhuma competição real no segmento de laptops top de linha, a Intel vem desacelerando o passo para oferecer melhorias reais quando o assunto é o design de chips, e os MacBooks sofreram com isso.

Com os seus próprios chips, a Apple pode trazer o mesmo tipo de inovação que vemos no iOS, com inteligência artificial, alta eficiência e ótima duração de bateria. Para além das melhorias de performance, um chip desenvolvido pela Apple permitiria que os Macs e aparelhos iOS tivessem uma relação mais ampla do que as funcionalidades Handoff e Continuity, e nos deixaria mais próximos de um possível MacBook iOS.

Ganhos gerais

A reportagem da Bloomberg citada acima aponta que o lançamento dos novos chips seria progressivo, e suspeito que os primeiros Macs a receberem um processador do tipo seriam os MacBooks de entrada e o MacBook Air (ou como quer que eles serão chamados até lá). Para a maioria dos usuários interessados em um laptop da Apple, o MacBook Pro é muito caro e poderoso para as necessidades deles, e são essas máquinas que recebem menos “amor” da Intel.

Em benchmarks crus, o chip A11, do iPhone, supera os processadores Core m3, do MacBook de 12 polegadas, e Core i5, do MacBook Pro. Isso não quer dizer que a Apple pode apenas colocar um chip do iPhone em um notebook e esperar que ele resolva as coisas, mas significa que a empresa não está muito longe de conseguir criar um processador ARM viável para computadores.

A conferência de desenvolvedores WWDC de 2020 parece uma possibilidade real para receber o anúncio de um chip desses, provavelmente ao lado de um novo modelo de um Mac portátil. Já surgiram muitos rumores recentes de que a Apple está trabalhando em um MacBook Air mais barato, e um chip próprio se encaixaria bem nesses planos.

Um Mac mais em conta com um chip feito pela Apple e uma versão do macOS que se entende bem com apps iOS seria algo revolucionário para a Apple. Sim, não seria uma máquina para todos os usuários, mas juntamente com a compatibilidade cruzada, o computador poderia oferecer ganhos sérios em velocidade e eficiência energética em relação aos modelos atuais da Intel.

Também ajudaria a Apple a criar uma separação real entre os MacBooks de entrada e o restante dos imitadores na forma de PCs (assim como os chips A para iPhone e os aparelhos Android com processadores Snapdragon), e permitiria que a empresa otimizasse completamente o macOS no estilo do iOS. Mas, talvez mais importante ainda, daria controle sobre o roadmap para a Apple, permitindo que a companhia desenvolva e lance Macs nos seus próprios termos.

Inovação sem a Intel

Se a Apple utilizasse processadores Snapdragon nos iPhones, as coisas seriam muito diferentes. Mesmo com um chip top de linha, os iPhones provavelmente não rodariam de forma tão rápida ou eficiente, e recursos como Face ID, Animoji e Portrait Lighting não seriam tão nítidos quanto são no iPhone – isso se existissem.

Os chips da série A dão uma vantagem importante para a Apple no desenvolvimento do iPhone, permitindo que a empresa crie recursos em conjunto com o chip principal que melhoram e ampliam as suas capacidades de modo que os fabricantes Android não conseguem. Isso acontece principalmente por conta do controle da Apple sobre o processador principal no iPhone, o que permite que a companhia otimize e refine o sistema mais do que a Samsung ou a LG podem fazer com os chips da Qualcomm.

Um processador customizado permitiria que a Apple fizesse a mesma coisa com o Mac. Já vimos avanços com os seus chips T1 e T2, trazendo coisas como a Touch Bar aos MacBooks Pro e uma melhor performance da câmera FaceTime e segurança melhorada na inicialização ao iMac Pro. Mas sem controle sobre o processador principal no MacBook, a Apple fica essencialmente à mercê da Intel, razão pela qual os MacBooks sempre parecem estar correndo atrás.

A Apple não tem ignorado o Mac, mas às vezes parece que sim por conta da estagnação da Intel e do próprio foco da empresa no iOS. Um chip customizado para o Mac não apenas traria melhores pontuações em benchmarks para os computadores da Apple, mas também permitiria que a fabricante inovasse e melhorasse as coisas nos seus próprios termos. E isso poderia abrir o Mac para um mundo completamente novo de oportunidades.