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Brasil entra na era do Open Banking

Novo conceito permite que terceiros possam desenvolver aplicações em torno das instituições financeiras que, por sua vez, abrem suas APIs para construção de aplicativos

23 de Dezembro de 2016 - 12h39

No já longínquo ano de 2015, o Gartner dizia que, neste ano, 75% dos 50 principais bancos globais (por ativos) teriam lançado uma plataforma API, e 25% abririam uma loja de aplicativos para os clientes. Chegamos ao fim do ano da profecia e, se esses números já não se concretizaram, ao que tudo indica, os avanços neste campo estão a todo vapor.

Mas por que longínquo quando estamos há pouco mais de um ano depois dessa previsão? Porque neste cenário o que temos vistos são pequenas revoluções a cada instante: o que talvez fosse uma possibilidade em 2015, hoje já é uma realidade se levarmos em consideração a estimativa feita pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban), a qual aponta que no Brasil os bancos investem cerca de R$ 20 bilhões por ano em tecnologia.

A ideia de colocar os bancos na era digital está tomando cada vez mais força no mercado brasileiro e as instituições financeiras estão correndo para, de fato, oferecerem a tão sonhada integração que tanto tem se falado com o surgimento do chamado Open Banking. Mas o que realmente é esse novo conceito? A ideia base é permitir que terceiros possam desenvolver aplicações em torno das instituições financeiras, que, por sua vez, abrem suas APIs (interfaces de programação de aplicações), um conjunto de padrões de programação que permite a construção de aplicativos.

Traduzindo os bites e bytes, uma API nada mais é que uma interface que roda por trás de tudo, ou seja, enquanto o usuário utiliza um aplicativo ou site, a sua API pode ou não estar conectada a diversos outros sistemas e aplicativos. No universo bancário, esta é a possibilidade de empresas externas passarem a construir aplicativos que interajam com os dados do banco, até mesmo realizarem transações financeiras.

Esse contexto já é uma realidade que começa a conquistar o brasileiro. Se hoje sabemos que muitas pessoas já não vão mais às agências bancárias para pagar uma conta, pois fazem isso via web, a possibilidade de existirem aplicativos requisitando permissão para acessar a conta do usuário para que ele possa realizar transações descomplicadas e com segurança é a grande menina dos olhos do momento. É claro que o banco deve contar com a permissão do cliente e limitar cada operação a um determinado escopo bem específico.

Com a mudança dos padrões do consumidor para o mobile first, buscando uma experiência personalizada e inovação dos serviços, a adesão ao open banking possibilita o crescimento de serviços financeiros inovadores e a geração de riqueza para as partes envolvidas. Esse movimento permite que as fintechs, por exemplo, possam focar na experiência de uso do cliente e não em construir um backend com serviços financeiros semelhantes ao de um banco. Com isso, o consumidor passa a usar os serviços do core business do banco, mas com o diferencial de uma experiência customer centric que deseja.

Aqui no Brasil, por mais que já existam (poucos) bancos nesta nova realidade, o mercado ainda enfrenta certa resistência de grandes instituições financeiras. A partir do momento em que elas abrirem suas APIs para o mundo, outras empresas se relacionarão com os seus clientes, fazendo com que o banco, como instituição que conhecemos, deixará de ser o protagonista da história, cedendo este papel para os mais diversos parceiros que esta abertura possibilitará ele a ter.

Embora o Brasil faça fortes investimentos em tecnologia bancária, ainda sofremos com a insegurança de realizar certas operações no meio virtual. Por isso, para um banco abrir suas aplicações é necessária uma plataforma de APIs robusta, que contenha uma série de regras e controle de acesso, para que seus parceiros tenham bem claro quais serviços eles podem acessar.

Mesmo diante de certa resistência, o Brasil sempre esteve à frente de outros países no quesito tecnologia e inovação bancária e com o movimento de Open Banking não será diferente. Mas, para isso, as nossas instituições devem ter a consciência que esta abertura só trará benefícios aos negócios, já que o banco passará a ser visto como um provedor dessas novas facilidades, deixando a cargo dos parceiros o relacionamento com o cliente.

O Open Banking é um caminho sem volta. Já é fato que o surgimento de aplicativos próprios ou de terceiros baseados nas APIs bancárias é uma realidade que veio para ficar tendo em vista que a previsão para 2017 é que mais de 60% das instituições já estarão abertas a receber esses novos serviços. Agora, basta apenas saber o quão próxima esta realidade estará ao alcance de todos os brasileiros.

* Felipe Almeida é cofundador e CMO da Zup, além de coautor do livro Jovens Empreendedores – Líderes do Brasil que dá certo (Editora Leader, 2016).