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Autodesk Brasil registra 30% de crescimento após mudança no modelo de contratação

Em entrevista, presidente da Autodesk Brasil, Sylvio Mode, faz um balanço da companhia e fala sobre o papel do designer em um mundo cada vez mais automatizado

25 de Setembro de 2017 - 18h41

Há pouco mais de um ano, a desenvolvedora de software Autodesk assumiu uma grande transição em seu modelo de negócio. Deixou a comercialização das chamadas licenças perpétuas para assumir o modelo de assinatura, com atualizações entregues exclusivamente através da nuvem. A mudança seguiu o exemplo de outros grandes nomes na indústria, como a Adobe.

Segundo a Autodesk, a empresa conta com uma carteira atual de mais de três milhões de assinaturas, com alto índice de renovação. No ano fiscal de 2017, registrou faturamento global de US$ 2,1 bilhões ante os US$ 2,5 bilhões conquistados no ano anterior.

No Brasil, o modelo de assinatura foi bem aceito, tendo apurado um crescimento de 30% em 2017. Além disso, a desenvolvedora, famosa pelo seu software Autocad, firmou neste ano acordo com sete novas revendas nas regiões sudeste, norte e nordeste, aumentando a capilaridade da marca em 20%, segundo a próprio a Autodesk. Em todo o Brasil, a companhia conta hoje com 37 canais.

Na entrevista a seguir, o presidente da Autodesk Brasil, Sylvio Mode, faz um balanço da companhia no País e discute o papel do designer em um mundo cada vez mais automatizado e orquestrado pela inteligência artificial.

Computerworld Brasil - O senhor está à frente da Autodesk há cerca de um ano. Poderia nos fazer um balanço deste tempo de operação no Brasil?

Sylvio Mode - Tivemos tanto um crescimento vertical quanto horizontal. Diria que estamos fazendo um volume maior de negócios, mas ao mesmo tempo estamos conseguindo posicionar o portfólio de produtos de uma forma mais abrangente. Uma das coisas que eu tenho tentado trazer aqui para o nosso time é a importância de não estar com o foco exagerado em apenas uma vertical do mercado. Temos que estar presentes em manufatura, da mesma forma que em Arquitetura, Engenharia e Construção e também em Mídia e Entretenimento.

Computerworld Brasil - Até então, vemos a companhia com maior foco em Arquitetura e Construção...

Sylvio Mode - É uma decorrência natural do Autocad, que sempre foi um produto cujo esforço de venda sempre foi muito menor, porque é um produto que a sua utilidade e os benefícios são de pleno domínio do usuário brasileiro há muitos anos.

Computerworld Brasil - Vocês completaram um ano da transição do modelo de negócios da Autodesk, deixando a venda de licenças perpétuas para o modelo de assinatura. Como avalia essa transição?

Sylvio Mode - Falando um pouco do Brasil e do mundo, em pouco mais de um ano neste novo modelo de negócio são três milhões de assinaturas, e esse é um número expressivo. Se você olhar o market capital da Autodesk, e isso é público, você vai ver que a gente está no topo do nosso valor desde sempre, então, isso mostra, claramente, o mercado aceitando e valorizando esse modelo de transição. E eu digo que crescer 30% dentro de um modelo de assinatura, enquanto você faz essa mudança é desafiador. Porque, na verdade, você não tem mais o valor do negócio feito com o mesmo cliente, que vai ter a mesma quantidade de acessos a nossa solução. Este é um valor monetariamente menor, porque eu não vou estar antecipando receita. Então, comparando ao modelo anterior com este novo modelo, nós tivemos um crescimento em volume de negócio de 30%, isso significa que, na verdade, em termos de volume de usuários acessando as nossas soluções, o crescimento foi ainda maior.

Computerworld Brasil - No final do dia, a mudança também acaba sendo um incentivo para usuários deixarem software pirateados?

Sylvio Mode - Não é uma causa do novo modelo, mas acaba sendo uma das boas consequências. Porque grande parte dos processos das licenças informais hoje é por falta de informação. Ninguém hoje que sabe que consegue acessar a última versão de um produto, vamos falar do Autocad, por menos de quatro reais por dia vai precisar piratear o que quer que seja, então quando você informa isso adequadamente e você tem essa equação que permite o acesso formal, é claro que o benefício do acesso formal é muito maior. Você tem acesso a suporte, à última versão, a comunidade do usuário, uma série de vantagens que, muitas vezes, o usuário não opta por isso, porque ainda está num modelo mental de que uma licença custa caríssimo.

Computerworld Brasil - A Autodesk lançou recentemente habilidades em design generativo. O senhor consegue ver isso já sendo aplicado no Brasil?

Sylvio Mode - Temos exemplos de empresas que fabricam drones e usaram design generativo e é algo super interessante. Quando você procura características como aerodinâmica, durabilidade, enfim, outros coeficientes importantes para este tipo de produto é quase como se, nessa busca por um modelo de eficiência e dentro dessa velocidade de evolução tão grande, o computador estivesse, de alguma forma, emulando o processo de seleção natural. Eu vi o caso de um drone cujo o formato final dele é quase como o de uma bacia humana. Então, você acaba tendo objetos com um formato orgânico que não é um formato natural de como a gente pensa. A gente pensa de uma forma muito mais geométrica e isso é muito interessante. O design generativo, na minha opinião, não limita a criatividade, acho que muito pelo contrário, ele te dá tempo para ser muito mais criativo. Ele te tira muitas tarefas que poderiam ser chatas.

Computerworld Brasil - Falando sobre esta nova onda de automação também aplicada ao mercado de trabalho quando falamos de criatividade, qual será o papel do designer aqui?

Sylvio Mode - Acho que ela vai liberar tempo para você exercer mais o seu talento. Eu vejo a automação como um grande propulsor do volume de trabalhos repetitivos, mesmo quando você coloca ali uma componente de inteligência artificial. Do ponto de vista prática, a inteligência artificial acaba antecipando ou dando mais velocidade a um processo que é direcionado por quem define quem são os limites desse processo. Então, eu acho que você vai ter muito mais opções para escolher, não vai ter mais que se preocupar com trabalhos repetitivos que agregam pouco valor, você vai ter uma máquina para fazer isso. Vai sobrar mais tempo para brainstorming, mais tempo para pensar na comercialização deste produto ou serviço. Acho que vai mudar um pouco o parâmetro de tempo. Eu vejo que automação reduz custo, aumenta a produtividade, reduz erros, mas em função disso, ela te dá mais tempo para ousar mais.

Computerworld Brasil - E como o profissional se prepara para esse futuro?

Sylvio Mode - Estudando. Não tem jeito. Hoje em dia, acho que você tem uma multiplicidade muito maior de áreas de atuação, muito mais do que antigamente e o mundo é daquele que se preparar melhor. Isso, na verdade, tem a ver com educação básica propriamente, porque a partir daí, você tem acesso gratuito a cursos de, praticamente, tudo que você quiser. Acho que como País, a melhor forma que a gente tem para não atrapalhar o próprio progresso é garantir que um, a gente tenha educação básica de qualidade e, dois, que a gente dê o maior acesso possível a Internet para as pessoas. Eu acho que isso permite com que as pessoas que tenham vontade consigam aprender, se especializar, e a partir daí consigam trilhar o seu caminho.